Derrotadores de Racionalidade e de Garantia

Derrotadores de racionalidade precisam ser distinguidos de derrotadores de garantia (onde garantia é a propriedade que distingue conhecimento de mera crença verdadeira), circunstâncias que resultam na não obtenção de garantia por uma dada crença minha num estado de coisas em que, de outro modo, ela teria. Um outro exemplo clássico, que ilustra a derrota de garantia: Eu estou dirigindo pelo sudeste de Wisconsin, vejo o que parece (e de fato é) um celeiro, e formo a crença “Nossa, que belo celeiro!”. No entanto, numa tentativa de esconder sua pobreza os nativos ergueram um grande número de fachadas de celeiros (quatro vezes o número de celeiros verdadeiros), falsos celeiros que parecem exatamente como um celeiro verdadeiro ao se observar da estrada. Como se vê, eu estou olhando para um celeiro verdadeiro. No entanto, a minha crença de que eu vejo um celeiro carece de garantia; é apenas por pura sorte que eu formo essa crença em relação ao celeiro real. Não há nenhuma falha de função apropriada aqui; nada na situação sugere que eu não esteja agindo de forma perfeitamente racional ao formar essa crença. Mas claramente, embora seja verdadeira, essa crença tem pouca garantia para mim e certamente não tem o suficiente para constituir conhecimento.

Todos os derrotadores de racionalidade são derrotadores de garantia; o contrário, claramente, não é o caso. Um derrotador de racionalidade, além do mais, será uma crença (ou experiência); um derrotador de garantia não precisa ser, mas geralmente será alguma característica do ambiente, como no caso do celeiro acima. Assim, na distinção que Michael Bergman faz, derrotadores de racionalidade são o que ele chama de derrotadores de estados mentais. Por derrotadores de estados mentais entende-se não aquilo que é derrotado, mas aquilo que realiza a derrota, a saber, estados mentais tais como crenças ou experiências do sujeito. Por outro lado, tem-se os chamados derrotadores proposicionais. Um derrotador proposicional é toda proposição existente que atualiza a derrota. No caso do exemplo acima, a proposição de que os habitantes de Wisconsin ergueram dezenas de falsos celeiros é o derrotador para a garantia de sua crença de que há um celeiro à sua frente. O derrotador proposicional é um derrotador de garantia, mas nem sempre um derrotador de racionalidade.

Não é necessário se ter consciência dos derrotadores de garantia e nos casos típicos de derrotadores de garantia que não são derrotadores de racionalidade não se está consciente deles; um derrotador de racionalidade, todavia, é geralmente uma crença de que o sujeito está consciente. Por fim, se você passa a saber de uma situação que constitui um derrotador de garantia para uma crença que você tenha, então (geralmente) você também tem um derrotador para aquela crença.

PLANTINGA, Alvin. Warrant and Proper Function. Nova Iorque: Oxford University Press, 1993, pp. 166-167;

BERGMANN, Michael. Justification Without Awareness. Nova Iorque: Oxford University Press, 2006, pp. 153;177.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: