Arquivo | julho 2019

Reforma Protestante e a Epistemologia de Plantinga

Apresentação no IFCS/UFRJ por ocasião do evento em comemoração aos 500 anos da Reforma sobre a influência do pensamento reformado na epistemologia contemporânea.

O Paradoxo do Prefácio

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É racional acreditar num conjunto de proposições internamente inconsistente? A princípio, a resposta natural é dizer que não. Tomemos por exemplo o conjunto P, que inclui as proposições {Deus existe, Deus não existe}. A crença nesse conjunto seria, por óbvio, irracional. Não há mundo possível em que o conjunto P seja verdadeiro.
 
Mas consideremos o Paradoxo do Prefácio. Eu resolvo escrever um livro apresentando um conjunto de crenças minhas. Ao escrever o Prefácio, eu digo que, como era de se esperar, acredito em cada uma das proposições descritas nas páginas daquele livro. Chamemos esse conjunto de proposições de S. No entanto, eu também acrescento que acredito que ao menos uma proposição descrita no livro é falsa. Nesse caso, eu acredito também no conjunto S*, que é a conjunção de S mais {ao menos uma proposição de S é falsa}.
 
S* é necessariamente falso. Não há mundo possível em que possa ser verdadeiro. Mas nos parece intuitivamente que a despeito disso tal crença é perfeitamente racional e garantida. Sendo assim, nem sempre a crença num conjunto de proposições inconsistente é irracional. Antes, há circunstâncias em que a postura racional é manter a crença a despeito da inconsistência daquilo que se crê.

O Dilema do Naturalismo Evolucionário

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Segundo o conhecido argumento de Plantinga, a admissão da conjunção naturalismo e evolucionismo (N&E) resulta num derrotador para a confiabilidade de nossas faculdades cognitivas. Sendo assim, quem admite N&E não teria qualquer razão para crer na verdade das crenças produzidas por seu aparato cognitivo, o que resultaria no mais radical ceticismo.

É claro que o naturalista resistirá a tal conclusão. No entanto, ele não tem como rejeitar a ideia apresentada por Plantinga de que o processo evolutivo acrescido do naturalismo não só poderia produzir faculdades cognitivas produtores de crenças sistemática e obstinadamente falsas como a sua própria posição metafísica impõe que ele aceite isso.

Ora, para o naturalista, Deus não existe. A crença em Deus, porém, é uma crença universalmente disseminada. Todos os povos conhecidos têm suas noções do divino e a psicologia evolutiva da religião tem demonstrado que a crença num Deus e nos seus atributos é profundamente enraizada na constituição do cérebro humano. O que corrobora o conceito proposto por João Calvino do sensus divinitatis. Mas se é falso que Deus existe, então fica demonstrado que o processo evolutivo ao menos nessa ocasião produziu faculdades cognitivas que resultaram numa ilusão cognitiva universal e obstinada, que profundamente afeta a vida e pensamento dos seres humanos.

Se o engano sobre algo tão profundamente internalizado no ser humano se alastrou dessa maneira por qualquer razão evolutiva que seja, com que base, então, poderia o naturalista supor que o engano não é uma das condições da vida humana?

Resta, portanto, a quem adere a N&E as opções de (1) abandonar a crença na teoria da evolução, um dos pilares da ciência moderna ou (2) “apostatar” do naturalismo rumo ao supernaturalismo. Dostoiévsky na sua célebre afirmação pontificou: se Deus não existe, então tudo é permitido. Na epistemologia de Plantinga, pode-se dizer que se Deus não existe, então nada é conhecido. Eis o dilema do naturalismo evolucionário.