História das Controvérsias Cristológicas

cross_mosaic

Por Vitor Grando
http://VitorGrando.wordpress.com
vitor.grnd@gmail.com

Índice

  1. INTRODUÇÃO
    Da Natureza da Ortodoxia
    Da Natureza da Heresia
  2. DA NATUREZA DA QUESTÃO CRISTOLÓGICA
  3. HISTÓRIA DAS CONTROVÉRSIAS CRISTOLÓGICAS
    A Caminho de Niceia
    A Caminho de Calcedônia
  4. MAS… E A PRÁTICA?
  5. BIBLIOGRAFIA

1. INTRODUÇÃO

DA NATUREZA DA ORTODOXIA

O estudo na dogmática cristã pressupõe a distinção entre ortodoxia e heterodoxia. Ortodoxia, basicamente, significa “ensinamento correto”, isto é, aquele conjunto de ensinamentos expressos ou implicados pelas Escrituras (norma normans) conforme interpretação da Tradição da Igreja (norma normata), em especial nos Credos definidos nos grandes Concílios Ecumênicos. Ao princípio sola scriptura da Reforma Protestante, não acompanha qualquer sugestão de livre-interpretação das Escrituras, mas traz consigo a importância do livre-exame das Escrituras, dado que elas são na hierarquia das leis a constituição da fé cristã à qual toda norma normata está subordinada. Portanto, o nosso exame das Escrituras precisa estar atento à regra geral para distinguir a verdade da fé ortodoxa da depravação herética estipulada por Vincent de Lérins, que é a atenção àquilo foi crido em todo o lugar, sempre e por todos os cristãos. Isto é, atento aos critérios da (1) catolicidade, (2) antiguidade e (3) consentimento. (CRISP, 2009). No entanto, o que distingue a concepção de tradição do catolicismo romano para o protestantismo é que enquanto aquele vai além do que é clara ou implicitamente revelado nas Escrituras, além de aplicar-se a doutrinas não fundamentais da fé cristã. O protestantismo compreende a tradição como, nas palavras de Irineu de Lyon, regula fidei (regra de fé), isto é, como guia interpretativo daquilo que está contido nas Escrituras. [1]A nossa fé não é uma fé sujeita aos modismos de um determinado século, mas ela perpassa e transcende todos os séculos. Nesse sentido, fica a lição de J.P. Moreland e Garrett DeWeese:

[…]ainda que a história da Igreja não seja infalível, se houver uma concepção ou conjunto delas que tenha sido adotada amplamente por respeitáveis pensadores na história da igreja, deve-se exigir muitas evidências antes de ir a uma direção diferente. […] Tome cuidado com a adesão a concepções de ensino bíblico que pareçam ser revisões politicamente corretas da Bíblia. Um bom teste para tais revisões é quando uma posição em uma área do ensinamento bíblico tenha sido adotada recente e justamente em um período em que houve pressão ideológica da cultura geral para que tal posição fosse aceita de alguma maneira. É mais do que irônico que seja descoberta, pela primeira vez na história da igreja, uma concepção que ‘coincidentemente’ está sendo recomendada pelos críticos da igreja (MORELAND & DeWEESE, 2011, p. 150)

DA NATUREZA DA HERESIA

Impõe-se, portanto, a explanação sobre o que define uma heresia. Na definição de Sto. Tomás: (II-II:11:1) heresia é “uma espécie de infidelidade nos homens em que, após terem professado a fé em Cristo, corrompem seus dogmas”. (Catholic Truth Comittee, 2014)

A corrupção de um dogma pressupõe uma ação deliberada. Então, o que define uma pessoa como um herege não é a mera adesão a uma crença não ortodoxa, pois se assim fosse a grande maioria de nós estaria condenado. A adesão a uma crença herética pode se dar por ignorância dos credos cristãos, juízo equivocado, compreensão imperfeita dos dogmas e uma série de outros fatores não volitivos. Em nenhum desses casos a vontade exerce um papel fundamental, pelo que uma das condições necessárias da pecaminosidade – que é a escolha livre – não está presente e, portanto, diz-se que a heresia e meramente material.

Por outro lado, a vontade pode livremente inclinar o intelecto a aderir a algum princípio considerado falso pela autoridade da Igreja cristã. Os motivos podem ser: orgulho intelectual ou demasiada confiança na própria capacidade de raciocínio, as ilusões do zelo religioso, os encantos do poder politico ou eclesiástico, os laços dos interesses materiais e status pessoal e ainda outros ainda mais desonrosos. A heresia volitiva sim é imputável ao sujeito e culpável; ela é chamada formal, porque ao erro material ela acrescenta o elemento informativo da livre escolha.

Portanto, a pertinácia, isto é, a adesão obstinada a algum principio é necessária para tornar a heresia formal. Pois enquanto o sujeito mantiver a disposição em se submeter à autoridade de Deus, ele permanece cristão em seu coração apesar de seus erros passageiros. Portanto, a heresia pressupõe uma disposição de oposição a Deus no coração. E esse juízo cabe somente aquele que sonda a mente e o coração.

Essa compreensão é de fundamental importância para a lida com movimentos heréticos e sectários do cristianismo. Porque não se pode julgar a parte pelo todo, atitude denominada falácia de distribuiçãoque é atribuir uma propriedade de um conjunto aos diferentes elementos particulares que o constituem. Quando se diz que determinado time de futebol é bom, não se conclui que cada um dos seus jogadores seja bom, porque a propriedade do todo não é imediatamente transferida às suas partes. Tome por exemplo um movimento herético como a Igreja Plenitude do Trono de Deus do farsante teatral “apóstolo” Agenor Duque. Nessas movimentos, sabemos haver muitas pessoas sérias, piedosas e verdadeiramente convertida, que estão lá não por obstinação do coração, mas por terem sido ensinadas de modo errado. É uma frequente a migração de crentes piedosos às igrejas mais sérias ao serem expostos com o ensinamento bíblico, porque o seu coração submisso à autoridade a Deus só aguardava a exposição da verdade para reconhecê-la.

Paulo, o apóstolo (esse sim de verdade), parece reconhecer isso quando escreve aos Gálatas. Essa epístola é considerada a mais visceral de Paulo, por uma série de fatores que não nos importa no momento. O que nos importa é a distinção clara que Paulo faz dos corruptores da fé daqueles que estavam tendo sua fé corrompida por aqueles. A estes, Paulo chama de “irmãos” (1.11), “meus filhinhos” (4.19); quanto àqueles, ele é de uma rispidez sem precedentes e um tanto chocante: “quem dera que se castrassem!” (5.12)

O que faz uma heresia é, portanto, uma disposição rebelde no coração. Uma oposição deliberada.

2. DA NATUREZA DA QUESTÃO CRISTOLÓGICA

Na dogmática cristã, possivelmente a cristologia é o tema mais vasto e certamente, por se tratar da pessoa de Jesus Cristo, é o ponto mais nevrálgico da fé e aquele que gerou os debates mais intenso. Existe mais de uma dezena de termos relevantes às discussões cristológicas: arianismo, homoiousios, homoousios, patripassianismo, docetismo, monarquianismo modalista e dinâmico, nestorianismo, apolinarismo, hipóstase, união hipostática, monofisismo, monotelismo, ditelismo, quenoticismo.

Tais são apenas alguns dos termos relacionados a questões cristológicas que, pela confusão que nos causa, indicam a complexidade do tema. Especificamente, a cristologia enfrenta problemas em duas frentes: (1) a compreensão da natureza da divindade de Cristo (arianismo principalmente) e de sua humanidade (docetismo) e (2) e o problema da relação entre as duas naturezas divina e humana na pessoa única de Cristo (Apolinarismo, Eutiquianismo, Nestorianismo).

A complexidade do tema é tal que leva alguns teólogos a serem fatalistas e negarem a possibilidade de compreensão do mistério da encarnação, como é o caso de Louis Berkhof:

A doutrina das duas naturezas numa só pessoa transcende a razão humana. É expressão de uma realidade supermental e de um mistério incompreensível, que não tem analogia na vida do homem como conhecemos, não acha suporte da razão humana e, portanto, só pode ser aceita pela fé na autoridade da palavra de Deus. (BERKHOF, p. 317)

Outros são menos fatalistas. Reconhecem o mistério e a dificuldade de compreensão da doutrina, mas diferente de Berkhof afirmam que há sim um análogo na vida do homem que pode ilustrar o mistério da encarnação. Nesse sentido, afirma Hodge:

A união entre alma e corpo na constituição do homem é o análogo da união da natureza humana e divina na pessoa de Cristo. Não se esperar que nenhuma analogia responda todos os pontos. Mas, nesse caso, há suficiente semelhança para sustentar a fé e refutar a descrença. Não há nada em um que seja mais misterioso ou inescrutável que o outro (HODGE, 2015)

Outros são ainda mais radicais que Berkhof e parecem afirmar que a doutrina é irracional. Assim, Maurice Relton em A Study in Christology afirmou que “a pessoa de Cristo é a falência da lógica” (CRAIG, MORELAND, & J.P., 2003, p. 721)

No entanto, a despeito da complexidade do tema, não podemos concordar que na fé cristã, ainda mais na pessoa do logos encarnado, haja alguma espécie de afronta à lógica. A fé cristã jamais nos exige a crença naquilo que é flagrantemente irracional; no entanto, a fé cristã em não poucas questões nos exige a crença naquilo que transcende a razão, isto é, naquilo para o que as nossas capacidades cognitivas não tem capacidade para apreender e, portanto, têm de ser cridas com base na autoridade daquilo que o próprio Deus revelou e, por isso, são evidentemente racionais. Transcender a razão e contrariar a razão são coisas aparentemente similares, mas profundamente distintas.

Por isso Tomás de Aquino diz:

Das obras divinas, a Encarnação é a que mais excede a nossa razão, pois nada de mais admirável se pode pensar como tendo sido realizado por Deus do que o verdadeiro Deus, o Filho de Deus, fazer-se verdadeiro homem. E como este mistério e o que há de mais admirável, para a fé deste mistério admirabilíssimo estão ordenados todos os milagres, pois aquilo que e máximo em cada gênero e causa das demais coisas deste gênero (II Metafisica 1, 993b. Cmt 2. 2925) (AQUINO, 1996, p. 768)

Até mesmo Tomás de Aquino, o maior representante da síntese entre filosofia e fé cristã que já tivemos, ferrenho defensor da consonância entre as verdades da revelação e as verdades da razão, reconhece o mistério da Encarnação, que ultrapassa nossas capacidades cognitivas. No entanto, percebam, ele não afirma falência da logica, mas transcendência a razão. Não se poderia pensar diferente se acreditamos que a fé cristã foi revelada pelo próprio Onisciente. Justamente por isso, não poderíamos esperar que as verdades da fé coubessem nas nossas limitadas faculdades cognitivas. Finitum non capax infinitum.

3. HISTÓRIA DAS CONTROVÉRSIAS CRISTOLÓGICAS

A CAMINHO DE NICEIA

Docetismo: Derivação do gnosticismo, possivelmente a primeira seita herética que o cristianismo enfrentou. Partindo da ideia de que a matéria seria de alguma maneira ruim, a natureza do Jesus encarnado não poderia incluir um corpo. Portanto, o docetismo vai afirmar que o corpo de Cristo seria apenas uma aparência (do grego, dokesis) e não um corpo real. Isso é enfrentado e negado ainda nos tempos apostólicos como se pode conferir nos seguintes versículos (Co 2.8-9, 1Jo 1.1-3; 4.1-3; 2Jo 7). O interessante desse problema é que serve de ilustração adequada de como um pressuposto de uma filosofia secular é muitas vezes tomado como ponto de partida para a interpretação das verdades reveladas sem que se permita que seja a Revelação a determinar os nossos pressupostos filosóficos. Muitos dos problemas que a teologia enfrenta com o pensamento secular não se tratam de reais problemas da razão, mas apenas de confronto de pressupostos filosóficos. A teologia liberal explicitamente sujeitava a teologia à cama de Procusto do pensamento filosófico secular e, por isso mesmo, tornou-se rapidamente irrelevante.

Monarquianismo: É um conjunto de heresias do segundo e terceiro séculos. A palavra – monarchiani – foi usada pela primeira vez por Tertuliano como um rotulo aos patripassianos.  O termo monarca é a junção de duas palavras gregas. O prefixo mono, que significa um e arché, que significa princípio ou chefe. Esse termo, portanto, denota uma compreensão da trindade como constituindo de um único ser soberano, que é o Deus Pai, do qual as demais pessoas lhe seriam subordinadas ou dele derivadas. O monarquianismo pode ser:

Monarquianismo dinâmico ou adocionismo: é um conjunto de heresias que diz que Jesus não era Deus, mas se tornou Deus (por isso dinâmico) de alguma maneira. Seja por criação direta de Deus (Ário), ou por via da adoção.

Monarquianismo Modalista: essa forma de se interpretar a trindade entende que qualquer interpretação trinitária da historia da criação e salvação se refere a uma das diversas formas (ou modos) de Deus agir externamente e não descrevem nada acerca da vida divina interior A ideia era excluir qualquer forma de distinções na divindade sob o comando de uma monarquia (um único principio). (O’COLLINS, 2009, p. 174) Assim, a trindade é compreendida como uma única essência manifestada em três modos distintos e não pessoas. Dividiam-se entre os patripassianos e sabellianos. O monarquianismo modalístico vai implicar uma outra heresia, que é o patripassianismo. A ideia de que na Cruz quem sofreu foi o Pai e não o filho.

A Igreja no Concilio de Antioquia em 267 d.C. rejeita a fórmula de Sabellius de que Jesus seria homoousios com o Pai, isto é, a mesma pessoa que o Pai e defende a formula homoiousios, de pessoa similar. Paulo de Samosata, originador dessa forma de monarquianismo, é condenado no concílio.

Arianismo: uma forma de monarquianismo dinâmico. No inicio do século IV, a Igreja enfrenta aquela que é talvez uma de suas mais famosas heresias. Talvez a heresia que chegou mais perto de tornar-se posição dominante. Ário ensinava que Jesus não era consubstancial com o Pai, isto é, não partilhava da mesma substância. Sendo uma criatura de Deus criada pelo Deus Pai na divindade e, portanto, um deus de natureza inferior ao Pai. Ele é um com o Pai no objetivo e missão, mas não no ser.

Ário e o arianismo são condenados no Concílio de Niceia em 325 d.C. O Concílio nega a fórmula ariana de que Jesus seria criado pelo Pai e afirma que ele foi gerado unigênito do Pai. A expressão criação denota algo que é feito a partir do que lhe é externo. Nós construímos casas, carros e edifícios. Tais coisas, por óbvio, não partilham da nossa essência. A fórmula gerado unigênito pressupõe paternidade. Nesse caso, aquilo que gera o faz a partir de sua essência. Um filho partilha da essência da humanidade com o pai que o gerou, tal como o Filho partilha da essência da divindade do Pai que o gerou. Ademais, a expressão unigênito denota que ele é o único gerado, distinguindo, assim, o Verbo Divino das demais criaturas de Deus.

O desenvolvimento curioso de Niceia é que, a julgar pelas palavras, podemos ser levados a crer que houve uma contradição com o anterior Concilio de Antioquia. Porque, Ário abraça a fórmula antioquena homoiousios de que Jesus é similar a Deus, mas desta vez o Concílio condena a expressão e adota a expressão homoousios, que havia sido ananematizada no Concílio anterior. Alguém já disse que nunca na história da humanidade gastou-se tanta energia numa única vogal.

No entanto, uma simples vogal pode representar um sentido completamente diferente numa mesma palavra. O teólogo Millard Erickson ilustra esse ponto com uma ocasião em que, editando o boletim de sua igreja, saudava um casal que havia recentemente se “desunido (untied)  no casamento. O correto seria unido (united). Felizmente, o boletim foi corrigido antes de sua divulgação. (ERICKSON, 2015, p. 676). Ademais, a aparente contradição entre as decisões conciliares de Antioquia e Niceia ilustram também como a sentido de uma palavra muda completamente com o tempo. Em Antioquia, ousia era compreendida pelos Sabellianos como sinônimo de hipóstase (pessoa) (O’COLLINS, 2009) e, portanto, a negação de que Jesus e o Pai consistiriam da mesma pessoa. Em Niceia, a mesma expressão está sendo entendida como natureza ou essência e, portanto, cabe agora a rejeição da expressão aprovada por Antioquia, mas com uma sentido completamente distinto. A tabela abaixo nos ajuda a entender a distinção.

OUSIA Sujeito individualizado (pessoa) Antioquia
Essência primordial Niceia

Cabe aqui, lembrarmo-nos mais uma vez da importância do uso correto das palavras. Em De Interpretatione, Aristóteles nos ensina que as palavras consistem em dois elementos ao menos. Um símbolo, quer seja gráfico ou sonoro, e a coisa a que o símbolo se refere no mundo. Uma mesma coisa é representada por símbolos diferentes em diferentes línguas. Bola ou ball, por exemplo. No entanto, essa correlação entre símbolo e a coisa é uma atividade convencionada por nós seres humanos. Nós convencionamos que “bola” se referiria àquele objeto redondo que usamos em atividades esportivas. Convenções, porém, mudam com o tempo seja organicamente ou deliberadamente. É o caso de ousia, que no contexto de Niceia passou a se referir a algo completamente diferente de Antioquia.

A teologia liberal astutamente tinha por hábito a ressignificação de símbolos cristãos fazendo-os se referir a coisa completamente diferente do que se referiam ao longo dos séculos na tradição cristã. Assim, eles se escondiam por trás da linguagem religiosa, mas completamente ressignificada de modo completamente avesso à compreensão tradicional. Assim, a ressurreição, por exemplo, deixou de ser entendida como o retorno à vida de alguém morto – como qualquer pessoa não afetada por perversões filosóficas sempre entenderá – e passou a se referir a uma espécie de ressurreição ocorrida no coração daquele que crê. Na Igreja, permaneciam com a mesma linguagem ortodoxa, mas como uma compreensão completamente secularizada. Fica o alerta também ao envolvimento político do cristão, dado que frequentemente palavras carregadas de sentido positivo como direitos humanos, justiça social, igualdade, liberdade, amor e outras são usadas num sentido completamente diverso ou até mesmo inverso do que comumente entendemos por elas. Não à toa que o século XX viu tanto sangue derramado em nome dos mais elevados ideais. Isso é o que Francis Schaeffer denominava misticismo semântico. Talvez seja uma das mais perniciosas facetas da teologia liberal, dada a sua covardia em não explicitar exatamente o que crê. Voltemos ao que importa…

Tendo encerrada em Niceia a discussão sobre a natureza da divindade de Jesus Cristo, a atividade intelectual da Igreja agora enfrentaria novos desafios[2]. A questão entre o século IV e VII seria em torno da interrelação das duas naturezas de Cristo numa só pessoa. De que modo, deveríamos compreender a afirmação de que Jesus Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem?

A CAMINHO DE CALCEDÔNIA

O inimigo agora é outro. Ou melhor, são outros. No século subsequente à Niceia, outras foram as heresias que tiveram de ser enfrentadas e combatidas.

Apolinarismo: Apolinário (390 d.C.), bispo de Laodiceia, no século IV. Talvez o mais ortodoxo dos hereges. Ao menos sua tentativa era fruto de uma vontade sincera de defender uma concepção ortodoxa em contraponto ao arianismo e é o que chegou mais próximo disso. Ele compreendia o ser humano como um composto de corpo (soma), alma animal (psiquê) e alma racional (nous). Ele vai dizer, portanto, que o logos divino ocupa em Jesus o lugar da alma racional. Mas isso é problemático, pois um corpo sem alma racional dificilmente pode ser considerado verdadeiramente humano. Se a coisa fosse como Apolinário sugeriu, Deus teria tomado para si apenas a alma animal e não a alma humana, isto é, Deus teria tornado-se meramente um animal, mas não um homem como acusou Gregorio de Nissa. Sem uma mente humana, o Logos divino teria se apossado de um zumbi e não de um homem. Portanto, de acordo com o principio postulado pelo citado Gregorio quod non est assumptum no est sanatum (aquilo que não é assumido não é salvo), nossa redenção seria parcial – consistindo tão somente do corpo e não da metne – e estaria prejudicada. O apolinarismo, portanto, peca por prejudicar a natureza humana de Jesus Cristo. Por isso, a doutrina de Apolinário vai ser condenada no Concílio de Constantinopla em 381.

Nestorianismo: a heresia associada ao nome de Nestório que, na verdade, tem sua provável origem em Teodoro de Mopsuéstia, consiste em distinguir as duas naturezas de Cristo de tal forma a separá-las completamente tornando-as duas pessoas distintas. Assim, a encarnação é concebida em termos de habitação divina na pessoa humana de Jesus Cristo. A unidade do Deus homem é uma unidade apenas funcional e não hipostática. É, basicamente, como se Deus habitasse em perfeita plenitude num ser humano comum. Nestório foi acusado dessa heresia por causa de sua recusa em se referir a Maria como theotokos (mãe de Deus) uma vez que Maria teria carregado em seu ventre apenas o homem Jesus, não o logos divino. A Enciclopédia Católica resume o ensinamento de Nestório no seguinte:

Maria não pariu o Deus pai (verdade) nem o Verbo de Deus (falso), mas o órgão, o templo do Deus Pai. O homem Jesus Cristo é o templo, “a púrpura animada do Rei” como ele expressou numa passagem de profunda eloquência. O Deus encarnado não sofreu ou morreu, mas ressurgiu dos mortos aquele no qual Ele estava encarnado. O Verbo e o homem devem ser adorados em conjunto e ele acrescenta: “Por aquele que carrega, eu adoro aquele que é carregado” (Catholic Truth Comittee, 2014)

Portanto, ele mantinha que, na verdade, Jesus era duas pessoas. No entanto, o dado bíblico não nos permite falar de duas pessoas, pois nas Escrituras a predicação de atributos relaciona-se a uma única pessoa sem distinção. Diz-se da pessoa de Jesus Cristo que ele era Deus, que ele sofreu, que ele fez milagres, que ele chorou e que ele morreu. Ademais, se fosse assim não haveria real união entre o divino e humano, pois seria como se tão somente o divino habitasse o humano e, assim, não haveria distinção fundamental entre a habitação do divino em Jesus e em nos. Seria apenas uma diferença quantitativa, mas não qualitativa. Por isso a Igreja afirma a expressão theotokos, pois diz-se da pessoa que estava no ventre de Maria, que ela era divina dado possuir a natureza de Deus e, portanto, poder ser dele predicado corretamente que era Deus.  O nestorianismo é Condenado em Éfeso (431).

Eutiquianismo: Êutico desenvolveu a chamada heresia monofisita, de certa forma em reação à heresia nestoriana. A ideia era de que as duas naturezas de Cristo estariam de alguma forma misturadas numa só tendo a natureza humana sido absorvida pela natureza divina. Assim, não há distinção alguma de naturezas e Jesus Cristo é uma pessoa que não é nem humana nem divina, mas uma terceira coisa ou, no termo latino, uma tertium quid. Jesus seria como a figura de um centauro, a figura mitológica que não é nem plenamente homem nem plenamente cavalo, mas uma mistura de ambos. Se Jesus Cristo é uma fusão das naturezas divina e humana, ele certamente não pode ser considerado nem Deus, nem humano, mas uma terceira coisa.

CONCILIO DE CALCEDÔNIA (451 d.C.)

Então, por causa desse histórico de problemas cristológicos chegamos ao quarto Concílio Ecumênico, o Concílio de Calcedônia (451 d.C.) convocado pelo Imperador Marcião a pedido do papa Leão Magno. Seu principal objetivo foi afirmar a doutrina ortodoxa contra a heresia de Êutico e dos monofisitas. A Fórmula de Calcedônia traça os limites dentro dos quais a reflexão cristológica posterior teria que se dar. Assim, sob orientação do Espírito Santo, os bispos da Igreja lá reunidos concluíram pela seguinte definição:

Todos nós […] ensinamos que se deve confessar um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Deidade e também perfeito na humanidade; verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de alma racional e corpo, consubstacial [homoousis] ao Pai na Divindade e consubstancial [homoousis] a nós na humanidade, em todas as coisas semelhante a nós, exceto no pecado; gerado antes de todas as eras pelo Pai quanto à sua Divindade, e nos últimos dias, por nós e para nossa salvação, nasceu da Virgem Maria, a Mãe de Deus [theotokos], quanto à sua humanidade; um e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, sendo conhecido em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção das duas naturezas de modo algum é anulada pela união, mas as propriedades de cada natureza são preservadas e concorrem em uma Pessoa [prosopon] e uma Subsistência [hypostasis], não separada ou dividida em duas pessoas, porém um e o mesmo Filho, o unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo. (CRAIG, MORELAND, & J.P., 2003, p. 725)

É um belo exercício identificar no credo de Calcedônia as heresias específicas que estão sendo implicitamente condenadas. A declaração endossa claramente a cristologia diofisita (duas naturezas). Declara-se que na única pessoa de Cristo estão presentes duas naturezas. Implicitamente, também, está a rejeição ao apolinarismo na afirmação de verdadeiro e perfeito homem dotado de alma racional. O adjetivo gerado é uma rejeição implícita ao arianismo, que afirmava que Jesus Cristo era um ser criado por Deus. Geração significa tornar-se pai de alguém e, ao tornar-se pai, tem-se um filho da mesma essência do ser que gerou. A expressão criação, usada pelos ariados, pressupõe a ideia da criação de algo de essência diferente. Os quatro adjetivos (inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis) servem de lembrete restritivo aos dois excessos mais comuns em cristologia, que são a confusão das duas naturezas (o erro do eutiquianismo, que devem ser mantidas distintas e a unidade da pessoa que não pode ser comprometida (o erro do nestorianismo). Vamos reproduzir o credo identificando as diversas heresias que estão sendo atacadas:

Todos nós […] ensinamos que se deve confessar um só e o mesmo Filho [a afirmação de unidade da pessoa ataca o nestorianismo] , nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Deidade [ataca o arianismo] e também perfeito na humanidade [ataca o docetismo]; verdadeiro Deus e verdadeiro homem [ataca o arianismo de um lado; e o docetismo e apolinarismo de outro], de alma racional  [ataca o apolinarismo] e corpo [ataca o docetismo], consubstacial [homoousis] ao Pai na Divindade [ataca o arianismo] e consubstancial [homoousis] a nós na humanidade [ataca o docetismo e apolinarismo], em todas as coisas semelhante a nós, exceto no pecado; gerado antes de todas as eras pelo Pai quanto à sua Divindade [ataca o arianismo], e nos últimos dias, por nós e para nossa salvação, nasceu da Virgem Maria, a Mãe de Deus [theotokos], quanto à sua humanidade [ataca o nestorianismo]; um e o mesmo Cristo [ataca o nestorianismo], Filho, Senhor, Unigênito [ataca o arianismo], sendo conhecido em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis [ataca o eutiquianismo], indivisíveis, inseparáveis [ataca o nestorianismo]; a distinção das duas naturezas de modo algum é anulada pela união, mas as propriedades de cada natureza são preservadas [ataca o eutiquianismo] e concorrem em uma Pessoa [prosopon] e uma Subsistência [hypostasis], não separada ou dividida em duas pessoas [ataca o nestorianismo], porém um e o mesmo Filho [ataca o nestorianismo], o unigênito [ataca o arianismo], Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo. (CRAIG, MORELAND, & J.P., 2003, p. 725)

concilios

Os Concílios Cristológicos e suas decisões

Como um à parte a toda essa árida especulação teológica, fica a recomendação de leitura das atas conciliares onde encontraremos temas de relevância eminentemente prática como a condenação ao sequestro de mulheres e o cuidado especial com os pobres.Percebam que o propósito conciliar não é apresentar um tratado de filosofia da religião. Deste modo, não há a pretensão de se aprofundar no mistério apresentando-nos o modo pelo qual essa união hipostática ocorre. Calcedônia não explica como se dá a encarnação, mas apenas explica no que consiste a encarnação e, ao assim fazê-lo, traça os limites dentro dos quais deverá ocorrer toda especulação cristológica posterior. (CRAIG, p. 726). Não há, portanto, um modelo de encarnação oficial da Igreja. Muitos modelos já foram propostos, o neoapolinarismo de Craig e Moreland, o modelo kenótico desenvolvido a partir do século XIX, o modelo das duas mentes de Thomas Morris entre outros mais ou menos populares e mais ou menos adequados aos limites calcedônicos.

4. MAS… E A PRÁTICA?

Em primeiro lugar, a teologia por si só já tem sua relevância em dissipar dúvidas fortalecendo a fé do crente e, ao mesmo tempo, refutando as acusações de irracionalidade lançadas sobre nós. Explicações simplistas para a origem das religiões, especialmente a fé cristã, que reduzem religião a um mero jogo de poder ou imposição de classes dominantes não podem explicar toda a complexidade do fenômeno religioso. É absolutamente inacreditável a afirmação de que um fenômeno de tamanha complexidade como o judaísmo, o cristianismo ou até mesmo o islamismo possa ser criado e imposto de cima abaixo. Há inúmeras variáveis que participam da criação de um fenômeno religioso.

Nenhuma dessas religiões, porém, é fundada num milagre historicamente acessível como a ressurreição de Jesus de Nazaré. A complexidade da pessoa de Jesus de Nazaré e das discussões teológicas em torno dela é tal que não me permite crer que trata-se de uma construção humana e, penso, aponta para o seu caráter sobrenatural, dado que é de se esperar que a natureza divina esteja para muito além das nossas capacidades cognitivas. Portanto, a pessoa de Jesus Cristo só poderia ser incrivelmente complexa, porque divina.

Em segundo lugar, há um aspecto confortador ao estudarmos a pessoa de Jesus Cristo, pois o Credo de Calcedônia tem diversas implicações práticas para a fé do crente comum (ERICKSON, 2015, p. 676):

  • Se Jesus é de fato Deus, nós podemos ter conhecimento real de quem Deus é. “Quem vê a mim, vê o Pai” João 14.9
  • Se Jesus é de fato homem, ele conhece as nossas dores e é solidário com a nossa condição.
  • Se Jesus é de fato homem, ele nos revela a imagem do homem ideal.
  • Se Jesus é plenamente Deus e plenamente homem, podemos confiar que Deus e a humanidade foram, por fim, reconciliados por iniciativa daquele. Não foi iniciativa de um anjo, um profeta, um sábio. Mas foi o próprio Senhor do universo que desceu à terra para nos redimir.
  • E, por último, podemos dirigir nossas orações à pessoa de Cristo sem incorrer em blasfêmia.

Notas:

[1] Sobre o conceito de tradição no protestantismo e no catolicismo, cf. HODGE, Charles. Teologia Sistemática.

[2] É verdade que o arianismo não foi sepultado em Niceia. Muito pelo contrário, os esforços de Sto. Atanásio foram fundamentais para suprimir a investida ariana contra a Igreja nas décadas subsequentes. (Cf. Atanásio. Da Encarnação do Verbo.)

5. Bibliografia

AQUINO, T. d. (1996). Suma Contra os Gentios (Vol. II). Porto Alegre: EDIPUCRS; EST.

ATANÁSIO, S. (s.d.). Da Encarnação do Verbo. Paulus.

BERKHOF, L. (s.d.). Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã.

Catholic Truth Comittee. (2014). The Catholic Encyclopedia. New York: Catholic Way Publishing.

CRAIG, W. L., MORELAND, & J.P. (2003). Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova.

CRISP, O. (2009). God Incarnate: Explorations in Christology. London: T&T Clark International.

ERICKSON, M. (2015). Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova.

HODGE, C. (s.d.). Systematic Theology: The Complete Three Volumes. GLH Publishing.

MORELAND, J., & DeWEESE, G. (2011). Filosofia Concisa: Uma introdução aos principais temas filosóficos. São Paulo: Vida Nova.

O’COLLINS, G. S. (2009). Christology: A Biblical, Historical and Systematic Study of Jesus. New York: Oxford University Press.

PANNENBERG, W. (2009). Teologia Sistemática (Vol. II). Santo André: Paulus.

 

Anúncios

Tags:,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: