Tradição e Escrituras

apostolos

Por Vitor Grando
vitor.grnd@gmail.com
VitorGrando.wordpress.com

“edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra angular desse alicerce.” Ef 2:20

O pensamento protestante pós-Reforma causou uma ruptura com o valor da tradição da Igreja. A rusga entre dois partidos opostos tende a fazer com que ambas as partes supervalorizem sua forma de pensamento em detrimento de qualquer forma que sugira uma mínima validade do ponto de vista adversário. Não há espaço para aproximação. As linhas divisórias têm de ser traçadas claramente e, como consequência, arbitrariamente.

Assim sendo, do acirramento das diferenças entre dois grupos opostos, quem perde é o diálogo e a maturidade intelectual, que não se sustenta sem a compreensão do ponto de vista alheio. Todavia, essa indiferença – ou, pode-se dizer, animosidade – protestante para com a Tradição da Igreja não fazia parte do pensamento dos primeiros reformadores. Isso foi, na verdade, um desenvolvimento posterior em decorrência do exposto acima.

Martinho Lutero nunca desejou uma ruptura com a Igreja. A Reforma era uma reforma da Igreja, não a instituição de uma nova. Os reformadores reconheciam a importância do consenso cristão ao longo da História, mas, segundo o que entendiam, a Igreja de sua época havia se distanciado da Tradição dos Apóstolos e, por isso, precisava ser reformada para retornar àquilo do que, segundo eles, ela havia se afastado. A Reforma Protestante se via como a legítima continuação da Tradição dos Apóstolos entregue aos Pais da Igreja. O reconhecimento das Escrituras como autoridade máxima e suficiente – sola scriptura – não implicava uma desvalorização da Tradição.

Já distantes do calor dos debates do século XVI, já é hora de reabrirmos o debate do valor da Tradição no seio protestante. O Evangelho é o mesmo ontem e hoje. A mensagem dos Pais da Igreja é, portanto, é a mesma mensagem do Evangelho hoje.

Tertuliano no confronto com as interpretações particulares do gnosticismo se viu perante a questão de como definir a correta exegese das Escrituras. Que autoridade teríamos para confrontar a interpretação gnóstica de determinados textos? Que autoridade teríamos para confrontar as heresias que nos são apresentadas? Com isso a Tradição foi adquirindo cada vez mais relevância. Para Tertuliano, assim como para os demais Pais, “Cristo era a fonte primeira das doutrinas Cristãs, sendo a verdade, a Palavra pela qual o Pai se revelou; mas Ele confiou essa revelação aos apóstolos e é através deles somente que esse conhecimento podia ser obtido”[i]. A autoridade da Tradição se dá, portanto, por remontar àqueles a quem Cristo confiou sua mensagem, os apóstolos. A Tradição é apostólica, não é a tradição humana. Tradição e Escrituras não são coisas distintas.

A Tradição, nesse contexto, não é uma fonte distinta de revelação divina. A Tradição é a regula fidei pela qual descobrimos o verdadeiro sentido das Escrituras. Ela é um princípio à luz do qual devemos guiar nossa exegese. Ora, se a teologia cristã afirma que Deus conduz sua Igreja por meio do seu Santo Espírito, é de se esperar que haja uma continuidade doutrinária que perpasse todo o cristianismo por meio dos séculos. Não seria coerente com os próprios fundamentos da teologia a crença numa ruptura doutrinária com a Tradição. As Escrituras são, para eles, a Autoridade Máxima da revelação divina, em parte em razão de ser o testemunho mais antigo e confiável da tradição dos apóstolos e profetas. Os Pais da Igreja criam haver uma continuidade da Tradição desde os apóstolos até os seus dias. A Tradição não é fonte de autoridade à parte das Escrituras. Um dos pontos apresentados por Atanásio no confronto com Ário foi justamente que os seus argumentos foram defendidos por toda uma tradição de bispos que remontava aos apóstolos, ao passo que o ensinamento de Ário era algo inédito e, tendo a Revelação sido entregue aos apóstolos, muito improvável seria que Ário nos trouxesse uma interpretação correta das Escrituras que fosse radicalmente distinta dessa tradição.

Atanásio definiu a tradição como “a verdadeira e original tradição, ensinamento e fé da Igreja Católica [Universal], que o Senhor entregou, os apóstolos proclamaram e os Pais guardaram”. Nada novo. A boa e velha mensagem do Evangelho. A boa e velha mensagem da ortodoxia dos apóstolos, cuja autoridade é expressa nas Escrituras do Novo Testamento.

Que fique claro que Tradição não se refere à coisa nova, não se refere às práticas que os cristãos criaram e que perduraram por décadas ou séculos. A Tradição só tem valor enquanto tradição apostólica. É nisso que reside seu verdadeiro e precioso valor

A tradição é um guia válido, é um guia importante para nos levar à mensagem neotestamentária, à uma exegese correta das Escrituras. Não é “fonte secreta de revelação” acrescida às Escrituras. É, antes, um possível meio de assegurar que a Igreja permaneça fiel aos ensinamentos apostólicos em vez de adotar ensinamentos acomodados ao espírito da época. Voltemos, pois, aos Pais. Voltemos à tradição apostólica.

Notas:

[i] KELLY, J.N.D. Early Christian Doctrines, p.36

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