Existe Conflito entre Ciência e Religião?

GalileoTrial

Por Vitor Grando
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VitorGrando.worpress.com

O grande Galileu, já octogenário, sofreu nas masmorras da Inquisição, porque havia demonstrado por provas irrefragáveis o movimento da Terra.
Voltaire, “Descartes and Newton” (1728).

Se estivermos perguntando se há na natureza da ciência e na natureza da religião algo que lhes coloque em confronto a priori, a resposta é certamente não. Ser religioso não implica em qualquer animosidade em relação à ciência.

No entanto, é ao menos possível um conflito a posteriori quando certas concepções científicas entram em choque com outras concepções religiosas. Afinal, as diversas religiões – nisso incluso o cristianismo – fazem não só afirmações de natureza metafísica, mas também sobre a realidade histórica. Não obstante Bultmann, Crossan et al, a ressurreição de Cristo é claramente tratada como um evento histórico no espaço-tempo (1 Co 15.14) e, portanto, sujeita ao escrutínio da ciência histórica. Somente doses cavalares de teologia liberal podem nos fazer acreditar que os primeiros discípulos proclamavam a ressurreição enquanto testemunham o corpo do Salvador apodrecer no túmulo. Estudos históricos podem corroborar ou confrontar tal afirmação religiosa. Também a depender de como se interpretam os relatos da criação no Gênesis, é bem possível que isso gere um confronto com o darwinismo.

Por mais que alguns teólogos modernos insistam numa falsa dicotomia entre fé e razão – algo praticamente inédito na história da religião, como se pudéssemos conviver tranquilamente com posições logicamente contraditórias afirmadas entre ambas, a verdade é que havendo de fato conflito entre ambas, devemos buscar um meio possível de conciliação tentando melhor entender a afirmação de cada fonte de autoridade e, se for o caso, abrindo mão de uma delas. Por questão de coerência lógica, não se pode acreditar que Deus criou o mundo em seis dias de 24 horas e na teoria darwinista; não se pode acreditar que Jesus ressuscitou dos mortos e excluir esse fato dos eventos históricos ocorridos no espaço-tempo.

É certo que houve casos ao longo da história de conflitos a posteriori entre ciência e religião, no entanto tal guerra é tremendamente exagerada e não corresponde aos fatos. Andrew Dickson White, em 1896 escreveu uma obra intitulada The History of the Warfare of Science with Theology, na qual ele propagou diversos mitos a respeito de supostos conflitos entre a ciência e a religião. White, por exemplo, afirma que João Calvino, em seu Comentário ao Gênesis, contrapondo uma interpretação geocêntrica literal das Escrituras à interpretação copernicana teria dito “Quem ousará colocar a autoridade de Copérnico acima da autoridade do Espírito Santo?”. Essa e outras informações foram repetidas posteriormente por gente do porte de Bertrand Russell, um dos maiores filósofos do século XX, em sua obra História da Filosofia Ocidental.

Contrariando tudo aquilo que costumeiramente ouvimos os céticos alardearem a respeito de si mesmos, ninguém foi capaz de ir às fontes e conferir a veracidade de tal informação. Pois se o tivessem feito, saberiam que Calvino jamais disse tal coisa. Propagou-se assim um mito deveras contraproducente à aceitação intelectual da fé cristã e vemos como erros dessa natureza não são exclusividade dos “religiosos-obscurantistas-dogmáticos-medievais”. O espírito de credulidade é um vício epistêmico que acomete a todos nós quando deixamos nossas predileções determinarem nossas conclusões intelectuais – do mais fiel religioso ao mais condecorado cientista.

A oposição da religião à ciência é, em grande parte, um mito. O caso paradigmático usado para comprovar como a religião e, em especial, a Igreja Romana atravancaram o progresso científico é o caso de Galileu e Copérnico. O curioso é que heliocentrismo de Copérnico perdurou por pelo menos 100 anos até Galileu sem sofrer nenhuma oposição da Igreja. Como diz o filósofo Olavo de Carvalho:

“[…] ele [Galileu] jamais sofreu pressão ou intimidação de qualquer natureza. Sob recomendação pessoal do Papa Urbano VIII, aliás seu padrinho, ele foi tratado com o maior respeito e deferência pelos inquisidores. Ao longo de todo o processo, teve completa liberdade de movimentos e ficou hospedado na embaixada da Toscana, que seu amigo Benedetto Castelli descreveu como ‘a melhor de Roma’ e sua filha Maria Celeste como ‘um lugar tão delicioso’.”[1]

Percebemos que a rusga entre Galileu e a Igreja parece ter sido super dimensionada. Os problemas de Galileu com a Igreja não surgiram por causa de suas convicções científicas. Os problemas de Galileu só surgiram quando colocou as ideias do Papa em um personagem de um de seus livros cujo nome era “Tolo”.

Tanto isso é verdade que no prefácio de sua obra De revolutionibus orbium coelestium, Copérnico agradece a dois cardeais da Igreja Romana pela impressão de sua obra. Mas o que é mais surpreendente que foi ninguém menos do que Don Juan de Zuñiga – simplesmente o Chefe da Inquisição na Península Ibérica – que trouxe o copernicanismo para essa região quando a mando da Igreja foi lá fundar em Salamanca a Faculdade de Ciências da Matemática e instituiu o De Revolutionibus de Copérnico como bibliografia oficial.[2]

Os maiores adversários de Galileu não foram os sacerdotes. Enquanto Galileu começava a demonstrar através de suas observações que o copernicanismo era uma posição cada vez mais viável, foram principalmente os cientistas (filósofos naturais) que se opuseram a ele! À época, a cosmologia dominante era a geocêntrica de Aristóteles, a que Galileu e Copérnico se opuseram. Ao assim fazerem, receberam a oposição dos cientistas de sua época. Cientistas também sabem muito bem aderir às suas posições de modo dogmático. Em conjunto com a Igreja, que admitia a posição até então consensual na ciência, eles pressionaram contra Galileu.

O físico Simon Singh explica essa fenômeno:

A morte é um elemento essencial ao progresso da ciência, já que ela trata dos cientistas conservadores da geração anterior que tanto relutam a abandonar teorias antigas e falaciosas em prol de teorias novas e mais precisas. A relutância deles é compreensível, já que eles passam a vida inteira trabalhando em torno de um único modelo até que chega um momento em que são confrontados com a possibilidade de terem de abandonar seus modelos em favor de um novo. Como Max Planck, um dos mais importantes físicos do século XX, comentou: ‘Uma inovação científica importante raramente abre caminho conquistando e convertendo seus oponentes: é raro Saulo se tornar Paulo. O que acontece é que seus oponentes acabam morrendo e a nova geração já cresce familiarizada com as novas ideias.[3]

O modelo cosmológico hoje dominante, o Big Bang, também teve de enfrentar séria oposição dos cientistas de sua época. Alguns inclusive acreditavam que a teoria não passava de um complô da Igreja para dar ares científicos à Doutrina da Criação ex nihilo. A extinta União Soviética proibia seus cientistas de trabalharem esse modelo cosmológico sob a alegação de se tratar de “ciência burguesa”. Um deles, George Gamow, só pôde trabalhar o modelo ao fugir para os Estados Unidos. Aliás, uma das primeiras personalidades públicas a endossarem a teoria de George Lemaître sobre as origens do universo foi justamente o Papa.

No entanto, criticar os cientistas e os clérigos da época por não aceitarem prontamente a teoria copernicana, que hoje sabemos ser a descrição mais correta da cosmologia, é atestar uma grande incompreensão de como funciona o processo de aceitação de uma teoria científica. A aceitação de uma teoria científica não é como um vírus contagioso que se alastra rapidamente entre a comunidade científica. Inicialmente um cientista postula uma hipótese, em seguida tal hipótese é testada experimentalmente reiteradas vezes para ver se os fatos se encaixam com ela. Havendo suficientes evidências comprobatórias, sua aceitação na comunidade científica aumenta e ela ganha o status de teoria, i.e., um conjunto de princípios fundamentais subjacentes à ciência. Por isso mesmo que o próprio Galileu só veio a admitir a teoria copernicana em 1609, já com 45 anos, porque até então ele ainda acreditava que o peso das evidências ainda era contrário a Copérnico. Tanto evidências da experiência sensorial direta, das observações astronômicas, da física tradicional bem como de passagens das Escrituras pesavam contra Copérnico. [4] Toda teoria científica amplamente aceita hoje, outrora foi alvo do escrutínio crítico da comunidade científica. Isso vale para o darwinismo, a teoria do Big Bang e também para o copernicanismo.

Mitos como o de Galileu e o propagado por A.D. White nos são passados ad nauseam desde a mais tenra infância, de modo que hoje a religião é vista como inimiga da ciência, como se ela historicamente tivesse sido a grande inimiga e entrave ao progresso da ciência ou se houvesse um conflito a priori entre ambas. Fato comprovadamente falso.

É verdade que como qualquer instituição humana, como é o caso da Igreja, é de se esperar que essa instituição cometa certos equívocos, o que inclui equívocos de natureza científica. Cientistas erram; também erram os teólogos. Então é natural que a Igreja e os cristãos, em um momento ou outro, tenham cometido alguns equívocos no conflito ciência x religião.

Agora, julgar a religião pelos seus erros é como julgar os Doze Apóstolos por Judas. Pois é verdade também que religiosos estiveram por trás de grande parte das mais importantes descobertas científicas da História da Humanidade. Isaac Newton, ao lado de A. Einstein, o mais importante físico que já tivemos, era um cristão fervoroso e autor de obras de teologia; Johannes Kepler, Galileu e Copérnico eram todos cristãos; George Lemaitre, pioneiro da Teoria do Big Bang, era padre; Gregor Mendel, pai da genética, era monge agostiniano; Polkinhorne, físico de relevante contribuição à descoberta dos Quarks e Glúons, as menores partículas da matéria, é um sacerdote anglicano; Francis Collins, evangélico piedoso, foi Diretor do Projeto Genoma e em 2009 foi escolhido por Barack Obama para ocupar o cargo de Diretor do National Institutes of Health.

O conflito religião vs. ciência é um mito. Não podemos cair nesse engodo. É absolutamente inegável a contribuição de religiosos à ciência. É possível sugerir conflitos muito mais profundos e sólidos entre a ciência moderna e o naturalismo ateísta como sugere Alvin Plantinga com seu Argumento Evolucionista Contra o Naturalismo. Mas por ora o que foi exposto é suficiente.

Notas:

[1] CARVALHO, Olavo de. Um Mártir da Ciência. Diário do Comércio, 13 de abril de 2011;
[2] G. TESTAS; J. TESTAS. A Inquisição.
[3] SINGH, Simon. Big Bang.
[4] FINOCCHIARO, Maurice A. Myth 8: That Galileo Was Imprisoned and Tortured for Advocating Copernicanism. In: NUMBERS, Ronald (Ed.). Galileo Goes to Jail and Other Myths About Science and Religion. Londres: Harvard University Press, 2009. p. 69

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