A Religião de Karl Marx

Karl_Marx

Por Vitor Grando
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Pode-se considerar Karl Marx, ao lado de Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche e Charles Darwin, como um dos alicerces do espírito ateísta de nossos tempos. Para Marx, a crença religiosa era fruto de uma espécie de disfunção cognitiva. Como a consciência humana seria fruto das relações sociais e, para Marx, tais relações encontravam-se pervertidas, o resultado é que a crença religiosa seria fruto dessa perversão e, portanto, uma crença de pouco valor epistêmico. Freud dizia que a crença religiosa seria uma espécie de mecanismo psicológico destinado a satisfazer os anseios mais profundos da humanidade e, portanto, também não teria como objetivo a produção de crença verdadeira. Em Nietzsche, a religião é o desejo de controlar os mais fortes. Darwin, disse Richard Dawkins, tornou possível um ateísmo intelectualmente satisfatório porque – segundo Dawkins – teria eliminado Deus como exigência da explicação da natureza humana. Entretanto, ao contrário desses outros pensadores ateus¹ citados, Marx nunca escreveu um tratado específico contra a religião. Seu espírito antieclesiástico e ateísta era manifesto através de suas obras.

O ateísmo parece ser um pressuposto da teoria marxista, já que a religião, mais especificamente a Igreja Romana, é alicerce da tradição e, portanto, da superestrutura da sociedade contemporânea. A revolução marxista implica a subversão desses valores da tradição e, portanto, de seu maior representante: A Igreja Católica Apostólica Romana. Antonio Gramsci parece ter entendido isso perfeitamente no seu conceito de hegemonia e do intelectual orgânico. Este é o sustentador daquela. Assim, para que a revolução comunista procedesse fazia-se necessária a formação de intelectuais orgânicos vinculados à causa marxista. Estes seriam os responsáveis pela subversão dos valores da tradição e abririam espaço para recepção da revolução comunista. Não há verdade para eles, tal conceito é puramente burguês. O que importa é a construção de uma nova realidade que terá como fim o proletário ou afins.

Karl Marx foi influenciado pelos jovens hegelianos e sua crença na completa desassociação entre filosofia e teologia. Eles defendiam a completa emancipação da filosofia do domínio da teologia. A racionalidade encontra seu ápice aí, embora eu acredite que implícito nesse conceito de racionalidade esteja o conceito de naturalismo, isto é, a cosmovisão que concebe o universo, digamos, como uma caixa fechada onde tudo que existe e acontece encontra-se dentro desta caixa, portanto, as explicações e causas devem ser buscadas no interior dessa caixa. Não há espaço para influências externas tais como um Deus ou qualquer entidade metafísica. Essa concepção de racionalidade me parece deveras errônea. Não há nenhuma necessidade lógica do naturalismo para a racionalidade. Até porque se, de fato, houver um ser tal como Deus ou houver alguma ordem sobrenatural atuante, ou criadora, no universo fica difícil compreender como poderemos chegar a alguma conclusão racional sobre o universo e nossa existência sem levarmos em consideração tal pressuposição. Foi C.S. Lewis quem sabiamente afirmou que a última coisa que a questão de Deus pode ser é ser “mais ou menos importante”, pois das duas possíveis – e antagônicas – respostas a essa pergunta se derivam conclusões radicalmente opostas.

Se me for permitido fazer um comentário fruto das minhas convicções teológicas, cito um trecho do prefácio do livro Theology and the Kingdom of God do teólogo alemão Wolfhart Pannenberg. Pannenberg é um crítico do subjetivismo teológico de R. Bultmann e K. Barth. Para ele a teologia cristã é uma dentre outras conflitantes cosmovisões que buscam se impor e explicar o universo e a natureza humana. A teologia é uma empreitada pública aberta ao escrutínio da razão. Traduzindo livremente:

Se por razão alguém quer dizer as ideias que constituem a sabedoria convencional, então há muito na sabedoria bíblica que é “irracional”. Jesus disse que os últimos serão os primeiros, aquele que perde a sua vida a ganhará, e outros ensinos aparentemente irracionais. Paulo afirma que é um tolo por Cristo. Tais afirmações, insiste Pannenberg, não constituem um abandono da razão. Ao contrário, o argumento de Paulo é que seus oponentes estão arrazoando a partir de falsas premissas, pelas quais ele seria julgado como tolo. Contra isso ele afirma um outro conjunto de premissas e procede a defender a racionalidade de sua posição. Da mesma forma, Jesus convidou seus discípulos a segui-lo porque seu estilo de vida era razoável.

Vemos, então, o contraste do pensamento de Pannenberg e o pensamento moderno, como também do pensamento teológico de R. Bultmann e K. Barth. A racionalidade de uma proposição depende das premissas nas quais ela está baseada, portanto, a questão metafísica sobre a existência ou não de uma ordem sobrenatural é de fundamental relevância, mas jamais o naturalismo pode ser uma exigência lógica da racionalidade. Em síntese, o que temos aqui é um conflito entre cosmovisões diametralmente opostas: o naturalismo contra o supranaturalismo.

Mas, voltemos ao texto sobre Karl Marx. Para Marx a filosofia tem sua própria confissão de fé: o ateísmo, a radical negação de todos os deuses. Disse ele:

A filosofia, enquanto uma gota de sangue palpitar em seu coração, triunfador do mundo e inteiramente livre, não cessará de clamar com Epicuro aos adversários: Não é ateu quem despreza os deuses da multidão e sim aquele que adere às opiniões do vulgo acerca dos deuses. A filosofia não dissimula. A profissão de fé de Prometeu, resumida nesta única frase: ‘odeio de coração a todos e a cada um dos deuses’, é sua própria profissão de fé, seu lema contra todos os deuses do céu e da terra que não reconhecem a autoconsciência humana como a divindade suprema. Não pode haver outro deus ao lado deste”.²

Discordo, como já explicitei, da exigência naturalista para o pensamento filosófico. Aqui, então, gostaria de denunciar o que me parece ser a religião de Marx: a autoconsciência humana. Como pode Marx ter essa certeza da centralidade da autoconsciência humana? Parece-me que aqui vemos um compromisso de natureza religiosa ou metafísica de Marx e, acho que posso dizer, do marxismo. Não seria também essa posição uma espécie de ópio? Em que se apoiaria tal proposição marxista para que possamos julgá-la como racional ou não? Parece-me que não há lá como fundamentar tal afirmação. Aqui temos uma pressuposição marxista. Uma pressuposição religiosa; naturalista é verdade, mas ainda assim religiosa tal como Paul Tillich definiu a fé religiosa: “estar tomado por aquilo que nos toca de forma última”. A pressuposição marxista me parece tão dogmática quanto qualquer pressuposição religiosa. Isso se evidencia ainda mais nas promessas utópicas do marxismo ao sonhar com um tempo onde os homens terão tudo em “comum” sem sequer a necessidade do Estado, que será abolido por fim. Isso nada mais é do que trazer a esperança cristã de um vindouro Reino de Paz para o presente. É religião secularizada. Nas minhas limitações filosóficas não encontro diferença nenhuma de natrueza entre tal crença marxista e a religiosa.

¹ Um leitor me questionou pelo fato de eu ter colocado Darwin entre “pensadores ateus”, pois ele não era ateu e sim agnóstico. Ele tem razão, Darwin nasceu anglicano, foi leitor de William Paley, mas morreu agnóstico e não ateu como eu dissera. Veja sobre a visão religiosa de Darwin aqui (http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin#Vis.C3.A3o_religiosa).

². PARINETTO, L., Karl Marx sula religione, ed. La Nuova Itália, Firenze, 1980 –
(é uma antologia de 585 páginas de textos marxianos sobre a religião, com relativos breves
comentérlos) – p, 148,

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One response to “A Religião de Karl Marx”

  1. Nunes says :

    Creio que o fundo de poço no qual Marx atolou-se vai para além do ateísmo simples…Como bem suspeitou Richard Wurmbrand (no texto Era Karl Marx um Satanista?), o barbudo foi um mensageiro do Tinhoso, Pé Preto, Coisa Ruim, Pedro Botelho…

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