A Pedagogia de Antonio Gramsci

antonio (1)

Por Vitor Grando
vitor.grnd@gmail.com
VitorGrando.wordpress.com

“A tradição de todas as gerações mortas oprime, como um pesado, o cérebro dos vivos”[1] sentenciou Karl Marx. Certamente tal declaração pode ser revertida contra o seu próprio autor, haja vista sua ainda enorme influência – ainda que indireta – no contexto intelectual brasileiro. Temos partidos de orientação claramente marxista, bem como uma legião de estudiosos de suas obras em nossas universidades. Podemos não viver num regime comunista, mas ainda assim não é difícil identificar a influência velada que o marxismo exerce nos veículos de comunicação, nas ciências humanas e, até mesmo, na exegese bíblica, ou seja, sua influência viva no campo ideológico. Destarte, eis o motivo pelo qual eu escolhi o teórico marxista Antonio Gramsci para analisar sua pedagogia, que, após a queda do Muro de Berlim, foi providencial aos intentos marxistas. Gramsci foi um grande responsável pela difusão do marxismo no campo ideológico, como já dissemos acima, e isso inclui a disciplina da Pedagogia. Portanto, nada mais pertinente à nossa realidade do que a análise do pensamento gramsciano.

Nascido no final do século XIX, na Sardenha, Antonio Gramsci foi um dos grandes teóricos da esquerda. Foi jornalista, escritor, teórico e político italiano e um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Tendo sido um bom estudante, Gramsci venceu um prêmio que lhe permitiu estudar literatura na Universidade de Turim. A cidade de Turim, à época, passava por um rápido processo de industrialização, com as fábricas da Fiat e Lancia recrutando trabalhadores de várias regiões da Itália. Os sindicatos se fortaleceram e começaram a surgir conflitos sociais-trabalhistas. Gramsci frequentou círculos comunistas e associou-se com imigrantes sardos.

Sua situação financeira, no entanto, não era boa. As dificuldades materiais moldaram sua visão do mundo e tiveram grande peso na sua decisão de filiar-se ao Partido Socialista Italiano. Esta é uma característica comum aos mais ávidos comunistas: um passado menos favorecido.

Por ser um grande opositor do fascismo de Benito Mussolini, Gramsci foi preso em 1926 e assim permaneceu até 1934, quando foi liberto por problemas de saúde. Ao proferir sua sentença o juiz disse: “Temos que impedir esse cérebro de trabalhar por uns vinte anos.” Veio a falecer pouco tempo depois. Foi nesse período encarcerado que Gramsci escreveu sua principal obra Cadernos do Cárcere. Vamos ver agora dois de seus principais conceitos e, subsequentemente, sua pedagogia.

Hegemonia

Antes de adentrarmos na pedagogia de Antonio Gramsci, há dois conceitos que precisam ser elucidados por serem os pressupostos de suas teorias pedagógicas. O primeiro deles é o conceito de hegemonia. O conceito de hegemonia alçou Gramsci ao panteão teórico das esquerdas. Segundo o autor, por hegemonia entende-se o movimento articulado – o bloco histórico formado pela estrutura e superestrutura – na direção das disputas politicas. A superestrutura compreende a estrutura jurídica (Direito e Estado) e ideológica (moral, política, religião…)

O conceito parece exercer um duplo papel na concepção gramsciana: (1) denunciar os instrumentos empregados pela “hegemonia burguesa” e (2) estabelecer uma estratégia eficaz para o triunfo das classes trabalhadoras. Assim, pode-se perceber, a estratégia de tomada do poder deixa de se orientar em direção às estruturas e toma como alvo as super-estruturas da sociedade.

Na leitura proposta por Gramsci, a sociedade é um organismo complexo e relacional, que não pode ser totalmente explicado em termos de um determinismo econômico mecanicista, como propusera o marxismo ortodoxo. Ele não negava a mais-valia, a luta de classes, o materialismo histórico, o fim do “Estado burguês”, mas tentava mostrar o impacto poderoso de fatores morais, culturais e ideológicos nos processos sociais. Uma hegemonia, em suma, não se concretiza “apenas” com a posse dos meios de produção; a luta se dá também no campo ideológico. E aqui eu penso que está a grande contribuição de Gramsci à Esquerda. A luta não se dá apenas na tomada do Estado, na implantação da ditadura do proletariado, mas se dá também, ou prioritariamente, no campo ideológico, na subversão das ideias que, para Gramsci, são intrinsecamente associadas à burguesia e que, portanto, precisam ser extirpadas para a implantação da revolução. Gramsci, portanto, procede a uma subversão profunda e sutil do status quo.

Ao contrário da maioria dos teóricos que se dedicaram à interpretação e à continuidade do trabalho intelectual do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), que concentraram suas análises nas relações entre política e economia, Gramsci deteve-se particularmente no papel da cultura e dos intelectuais nos processos de transformação histórica. Suas ideias sobre educação surgem desse contexto.

Gramsci, que credita a Lenin os princípios gerais da hegemonia, deve ter lido com atenção a seguinte passagem de A Ideologia Alemã, de Marx e Engels: “a classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios de produção intelectual”.

Portanto, o poder das classes dominantes sobre o proletariado não reside somente no controle dos aparatos repressivos do Estado, mas na hegemonia cultural que as classes dominantes exercem sobre as dominadas, através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Diz o controverso Olavo de Carvalho:

Para Gramsci, o conceito de “verdade” é burguês. Ele traz ao marxismo o pragmatismo de seu mestre Antonio Labriola. Nesta, “verdade” não é o que corresponde a um estado objetivo, mas o que pode ter aplicação útil e eficaz numa situação dada. Enxertando o pragmatismo no marxismo, Labriola e Gramsci propunham que se jogasse no lixo o conceito de verdade: na nova cosmovisão, toda atividade intelectual não deveria buscar mais o conhecimento objetivo, mas sim a mera “adequação” das idéias a um determinado estado da luta social. Nesta nova cosmovisão, não haveria lugar para a distinção – burguesa, segundo Gramsci – entre verdade e mentira. Uma teoria, por exemplo, não se aceitaria por ser verdadeira, nem se rejeitaria por falsa, mas dela só se exigiria uma única e decisiva coisa: que fosse “expressiva” do seu momento histórico, e principalmente das aspirações da massa revolucionária. Dito de modo mais claro: Gramsci exige que toda atividade cultural e científica se reduza à mera propaganda política, mais ou menos disfarçada.

Herbert Marcuse, outro famoso marxista da Escola de Frankfurt, já propusera que “o conceito geral que foi desenvolvido pela lógica discursiva tem seu fundamento na realidade da dominação.” Ora, resta evidente que, para o marxismo, não havemos de recorrer às noções da Verdade ou da Lógica, pois fazer isso é sujeitar-se à ideologia dominante. Deste modo, para o marxista as demais coisas são julgadas a partir de seu único fim: a revolução. Daí observamos um total desprezo pela tradição clássica na cultura acadêmica contemporânea, qualquer apelo à Lógica é visto como uma tentativa de opressão do burguês contra o proletário oprimido (por proletário, hoje, pode-se entender “homossexual”, “maconheiro da USP”, etc.). Isso explica a animosidade contemporânea contra a Igreja Romana, o cristianismo, os valores da família e demais instituições tradicionais e, por isso mesmo, inimigas do marxismo. O próprio Marx no Manifesto já propunha a dissolução da família por considerá-lo um sustentáculo dos valores burgueses. Junta-se a invectiva de Marx contra a família e o que ela representa à estratégia de Gramsci e temos exatamente a agenda política esquerdista contemporânea, cujo alvo é todo conjunto de valores tipicamente relacionados à família. Pode-se encontrar dezenas de afirmações como essas em qualquer marxista proeminente, bem como no próprio Manifesto do Partido Comunista.

Passemos para o próximo ponto, mas não antes de citarmos as palavras de Mao Tse-Tung:

A superação do velho pelo novo é a universal e eternamente inviolável lei do mundo… Tudo encerra uma contradição entre seu novo aspecto e seu velho aspecto, que constitui uma intrincada série de lutas… No momento em que o novo aspecto ganha a posição dominante sobre o velho aspecto, a qualidade da velha coisa transforma-se na qualidade da nova coisa. Assim, a qualidade de uma coisa é fundamentalmente determinada pelo aspecto principal da contradição que ganhou a posição dominante.

Assim, não nos resta dúvida de que o que rege o pensamento, a moral e os valores marxistas são uma única coisa: a revolução, ou, nas palavras de Mao, o “novo”.

Gramsci e o Intelectual Orgânico.

Gramsci não entende o homem como um produto natural, mas como produto histórico; como produto de específicas relações sociais e, ao mesmo tempo, como indivíduo dotado de singularidade insuprimível.

Considerando que o homem é sujeito de sua história, Gramsci propõe a difusão da cultura humanista e filosófica no âmbito da classe operária e dos “subalternos” de um modo geral; a formação do hábito de pesquisa, método e disciplina nos estudos; e a valorização da vontade moral.

Se o homem é sujeito da história, cabe a ele transformá-la subvertendo os valores tradicionais, e isso não será feito sem o intelectual. Cabe ao intelectual dar sentido à hegemonia do grupo social dominante, daí a importância de formar intelectuais com valores trabalhistas para que, então, a revolução seja bem sucedida. A classe trabalhadora deveria produzir seus próprios intelectuais.

Gramsci difere entre dois tipos de intelectuais: (1) O intelectual orgânico, vinculado a uma “consciência de classe”; e (2) o intelectual tradicional, vinculado à anterior constituição histórica. Na briga pela hegemonia, os intelectuais orgânicos buscam absorver os tradicionais num processo em que o conhecimento se subordina à ação social.

A missão de Gramsci é catequizar outros intelectuais, que catequizarão lideranças de sindicatos e movimentos sociais, e estes haverão de mesclar o saber técnico e ideológico à sua práxis já testada e maturada no cotidiano social e do trabalho. Unidos na subversão dos valores tradicionais e do senso comum. Gramsci é de uma sutileza vil.

Não é por acaso, portanto, que as universidades brasileiras estão repletas de esquerdistas militantes. A cosmovisão marxista está presente explicitamente na filosofia e demais ciências humanas e, até mesmo, de forma mais sutil na exegese bíblica com a forte influência da Teologia da Libertação, como dito inicialmente. Há quem aponte, como fruto disso, para a “esquerdização” dos departamentos de informação, conhecimento e inteligência.

Gramsci e a Escola:

Para Gramsci a escola tinha um importante papel na análise da sociedade moderna. A escola era só mais um sistema de hegemonia ideológica onde os indivíduos eram direcionados a manter o status quo. A escola para Gramsci “deveria levar a criança até o ponto de escolha da profissão, formando-a durante esse tempo como uma pessoa capaz de pensar, estudar e governar – ou controlar aqueles que governam”.

Esse tipo de escola só poderia alcançar algum sucesso com a participação ativa dos alunos e, para que isso acontecesse, a escola deveria estar relacionada à vida cotidiana. O aprendiz deve ser ativo e não um “recipiente mecânico e passivo”. O ensino deve educar a partir da realidade viva do trabalhador.

Gramsci defende uma escola não técnica, como era nos tempos de Mussolini, mas ele defende o que ele chama de “ensino desinteressado”, ou seja, que interessa não apenas ao indivíduo, mas à coletividade. A educação deveria formar não só técnicos, mas intelectuais. Algo diferente do que é proposto na pedagogia coletivista moderna?

Na escola prevista por Gramsci, as classes desfavorecidas poderiam se inteirar dos códigos dominantes, a começar pela alfabetização. A construção de uma visão de mundo que desse acesso à condição de cidadão teria a finalidade inicial de substituir o que Gramsci chama de senso comum – conceitos desagregados, vindos de fora e impregnados de equívocos decorrentes da religião e do folclore. Com o termo folclore, o pensador designa tradições que perderam o significado, mas continuam se perpetuando. Para que o aluno adquira criticidade, Gramsci defende para os primeiros anos de escola um currículo que lhe apresente noções instrumentais (ler, escrever, fazer contas, conhecer os conceitos científicos) e seus direitos e deveres de cidadão. Foi Gramsci quem trouxe à pedagogia o conceito de formação da cidadania como um dos objetivos da escola.

Tudo isso marcou sua indispensável contribuição à área educacional (formal e informal). Gramsci chamou a atenção da escola, para que a mesma “não hipotecasse o futuro dos alunos; nem obrigasse suas vontades, inteligências, consciências e informações a se moverem na bitola de um trem com estação marcada”, e sempre foi contra o “abstratismo didático e doutrinário”. Almejava a formação “onilateral” do homem (integral, técnica e política). Seu método de ensino para o 2º grau e universidade, consistia “na investigação, no esforço espontâneo e autônomo do discente, e no qual o professor exerce apenas uma função de guia amigável”.

Termino com uma mais uma citação de Olavo de Carvalho:

Como o que interessa [para Gramsci] não é tanto a convicção política expressa, mas o fundo inconsciente do “senso comum”, Gramsci está menos interessado em persuasão racional do que em influência psicológica, em agir sobre a imaginação e o sentimento. Daí sua ênfase na educação primária. Seja para formar os futuros “intelectuais orgânicos”, seja simplesmente para predispor o povo aos sentimentos desejados, é muito importante que a influência comunista atinja sua clientela quando seus cérebros ainda estão tenros e incapazes de resistência crítica.

NOTAS:

[1] MARX, Karl. o 18 Brumário de Luis Bonaparte. Link: https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap01.htm

Referências Bibliográficas:
http://www.infed.org/thinkers/et-gram.htm http://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Gramsci
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u379.jhtm
http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/antonio-gramsci-307895.shtml
Revista Filosofia Conhecimento Prático N.:19
http://www.olavodecarvalho.org/livros/negramsci.htm

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