Teologia e Falsificação – Antony Flew

Antony Flew

Antony Flew

Tradução: Vitor Grando
vitor.grnd@gmail.com
VitorGrando.wordpress.com

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Este é um artigo clássico do filósofo Antony Flew (1923 – 2010), onde o autor acusa os enunciados teológicos de serem desprovidos de sentido. Diz-se ser este o artigo filosófico mais impresso da segunda metade do século XX tamanha sua importância. Flew foi um feroz ateu durante longos anos, no entanto, em 2004 admitiu a existência de Deus e tornou-se deísta; além disso Flew manteve amizade com pensadores cristãos como Gary Habermas e N.T. Wright e chegou a admitir que, embora não creia em milagres, as evidências da ressurreição de Cristo são consideráveis. Para conhecer mais sobre seu processo de “conversão” leia Jornada do Ateísmo à Crença.

TEOLOGIA E FALSIFICAÇÃO – ANTONY FLEW

Comecemos com uma parábola. É uma parábola desenvolvida a partir de um conto escrito por John Wisdom em seu revolucionário e importante artigo “Gods” [Deuses].[1] Certa feita, dois exploradores chegaram a uma clareira na selva. Na clareira cresciam muitas flores e ervas daninhas. Um dos exploradores diz: “Algum jardineiro deve cuidar das plantas”. Já o outro discorda: “Não há jardineiro algum”. Daí então, eles armam suas barracas e montam guarda. Nenhum jardineiro é visto em momento algum. “Mas talvez seja um jardineiro invisível”. Portanto, eles montam um cercado de arame farpado. Eletrificam o cercado. Patrulham com cães farejadores. (Pois eles se lembram como O Homem Invisível de H.G. Wells podia ser tocado e cheirado, embora não pudesse ser visto). Mas não houve nenhum grito de dor que sugerisse que alguém pudesse ter recebido um choque. Não houve nenhum movimento no cercado que denunciasse a entrada de um invasor. Os cães não latiram. Ainda assim o crente não estava convencido. “Mas existe um jardineiro invisível, intangível, insensível a choques elétricos; um jardineiro que não emite cheiro nem sons, um jardineiro que secretamente cuida do jardim que ama”. Por fim, o cético desesperançoso pergunta: “Mas o que resta de sua afirmação inicial? Como aquilo que você chama de jardineiro invisível, intangível e elusivo difere de um jardineiro imaginário ou até mesmo de nenhum jardineiro?”

Nessa parábola nós podemos perceber como aquilo que começa como uma afirmação de que algo existe ou de que há alguma analogia entre certos conjuntos de fenômenos pode ser reduzido, passo a passo, a uma condição completamente diferente, a uma expressão de “simples preferência”[2]. O cético diz que não há nenhum jardineiro. O crente diz que há um jardineiro (mas invisível, etc.). Um fala de comportamento sexual, o outro fala de Afrodite (mas sabe que não existe nenhuma pessoa sobreumana além do, e de alguma forma responsável por, todos os fenômenos sexuais).[3] O processo de classificação pode ser verificado em qualquer ponto anterior à afirmação inicial ter sido completamente esmaecida e algo da afirmação inicial permanecerá (tautologia). O homem invisível de Wells não podia ser visto, mas em todos os outros aspectos ele era um homem como todos nós. Mas embora o processo de classificação possa ser, e de fato é, verificado no tempo, nem sempre é judicialmente interrompido de forma tão abrupta. Alguém pode acabar por dissipar sua afirmação completamente sem sequer perceber que o fez. Uma audaz hipótese pode, então, ser destruída pouco a pouco, uma morte por mil qualificações.

E é nisso, pelo que me parece, que mora o perigo próprio, o mal endêmico, dos enunciados teológicos. Tome como exemplo enunciados tais como “Deus tem um plano”, “Deus criou o mundo”, “Deus nos ama como um pai ama seus filhos.” A princípio, eles parecem ser afirmações, amplas afirmações cosmológicas. Mas é claro, isso por si só não é um sinal seguro de que elas de fato sejam, ou pretendam ser, afirmações. Mas vamos nos ater aos casos onde aqueles que afirmam tais frases pretendem que elas expressem afirmações. (Aproveito para fazer uma observação complementar que aqueles que interpretam tais enunciados como uma ordem codificada, expressões de desejos, exclamações disfarçadas, ética oculta, ou qualquer outra coisa que não sejam afirmações, dificilmente terão êxito em torná-las tanto adequadamente ortodoxas ou eficazes em qualquer sentido prático).

Ora, afirmar que tal coisa é o caso é necessariamente equivalente a negar que tal coisa não seja o caso.[4] Imagine, então, que estejamos em dúvida sobre o que realmente esteja afirmando alguém que enuncia algo, ou imagine que, ainda mais radicalmente, estejamos céticos sobre se ele está de fato afirmando algo, uma forma de entender (ou talvez de expor) seu enunciado é tentar encontrar o que ele consideraria contrário, ou talvez incompatível com, a verdade de seu enunciado. Pois se o enunciado for realmente uma afirmação, então será necessariamente equivalente a uma contradição da negação da afirmação. E qualquer coisa que contaria contra a afirmação, ou que induziria o orador a rejeitá-la e admitir que sua afirmação estava errada, precisa ser parte (ou o todo) do sentido da negação da afirmação. E conhecer o sentido da negação da afirmação, ainda que aproximadamente, é conhecer o sentido da própria afirmação. [5] E se não houver nada que uma afirmação negue, então também não há nada que ela afirme: sendo assim, ela não é realmente uma afirmação. Quando o cético, na parábola, perguntou ao crente “Como aquilo que você chama de jardineiro invisível, intangível e elusivo difere de um jardineiro imaginário ou até mesmo de nenhum jardineiro?” ele estava sugerindo que a afirmação do crente havia sido tão corroída por qualificação que não era mais uma afirmação de modo algum.

O que parece ser o caso, do ponto de vista de pessoas que não são religiosas, é que não há evento ou conjunto de eventos concebíveis que, na ocorrência dos quais seriam admitidos, por pessoas religiosas instruídas, como razão suficiente para a admissão de que “não há Deus” ou que “Deus não nos ama de fato”. Dizem-nos que Deus nos ama como um pai ama seus filhos. Asseguram-nos disso. Mas, então, vemos uma criança morrendo de um câncer na garganta para o qual não há tratamento. Seu pai terreno faz de tudo para ajudar, mas o seu Pai Celeste não apresenta nenhum sinal óbvio de preocupação. Daí uma qualificação é feita – o amor de Deus é “não apenas amor humano” ou é “um amor inescrutável” – e então entendemos que tal sofrimento é compatível com a verdade da afirmação “Deus nos ama como um pai (mas é claro…)”. Novamente, isso nos é garantido. Mas então talvez perguntemos: do que vale essa segurança do amor de Deus (adequadamente qualificado), do que essa aparente garantia realmente nos garante? O que, exatamente, teria de acontecer (moralmente e injustamente) para nos levar (logicamente e justamente) a dizer “Deus não nos ama” ou até mesmo “Deus não existe”? Portanto, eu deixo uma simples pergunta aos próximos simposiastas: “O que teria de ocorrer ou ter ocorrido para que você aceitasse como uma prova contra o amor de Deus ou de sua existência?

Notas:

[1] P.A.S., 1944-5, reimpresso como o capítulo dez de Logic and Language, Vol.1 (Blackwell, 1951), e em seu Philosophy and Psychoanalysis (Blackwell, 1953).
[2] Cf. J. Wisom, “Other Minds”, Mind, 1940. reimpresso em seu Other Minds (Blackwell, 1952).
[3] Cf. Lucrécio, De Rerum Natura, II, 655-60.
[4] Para aqueles que preferem o simbolismo: p = ~ ~ p.
[5] Ao apenas negar ~p nós temos p: = ~ ~ p = p

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