Vidas de Sto. Ambrósio e Sto. Agostinho

Por Vitor Grando
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VitorGrando.wordpress.com

Ambrósio e Agostinho são duas das mais importantes figuras da história da Igreja cristã, cujas vidas estão intrinsecamente ligadas de modo que não é possível tratar adequadamente da vida de Ambrósio sem se referir a Agostinho e, principalmente, não podemos falar de Agostinho sem se referir a Ambrósio, que foi seu grande discipulador. Boa parte daquilo que sabemos sobre a vida de Ambrósio vem da obra Vida de Ambrósio de Paulino, escrita a pedido do próprio Agostinho. E se não fosse por S. Ambrósio, talvez Agostinho jamais tivesse se tornado o Santo Agostinho.

Ambrósio

A formação e eleição de Ambrósio ao episcopado de Milão

Ambrósio, de família abastada, desde cedo, era destinado à vida política, tendo sido eleito governador de Milão no ano de 371. Ambrósio, até então, não era um cristão comprometido, tendo sido eleito Bispo de Milão contra sua vontade. A Igreja de Milão, do Bispo Auxêncio, vivia em tensão devido à controvérsia Arianos vs. Nicenos. – resumidamente, os arianos defendiam que Cristo não partilhava da mesma substância do Deus Pai e, santo_ambrosio 01portanto, seria um deus criado e inferior, o Concílio de Niceia (daí o nome nicenos) condenou Ário como herege. A Igreja se dividia entre esses dois grupos. Após a morte de Auxêncio, os nicenos se sentiram impelidos a eleger um bispo que representasse o credo niceno – Ambrósio nem cogitava se candidatar. Devido ao conflito, o próprio governador decide estar presente durante a eleição para evitar qualquer tumulto. Num certo momento após Ambrósio, com sua oratória, apaziguar o conflito, uma criança se levantou e bradou ‘Ambrósio, bispo!’. Prontamente todos resolveram votar em Ambrósio, inclusive os arianos. A voz das crianças, naquela época, era vista como a voz da inocência, quando uma criança falava era como se Deus falasse, portanto a vontade de Deus era o episcopado ambrosiano. Ambrósio se retirou da Igreja, porém, os fiéis não mudaram de idéia, eles fariam o impossível para empossar Ambrósio. Como governador ele fez uso do seu direito de torturar os acusados, Paulino nos relata que:

‘Ambrósio deixou a Igreja e mandou preparar seu tribunal… Contrariamente ao seu costume, ordenou que submetessem as pessoas à tortura. Porém, mesmo diante deste fato o povo não deixava de aclamá-lo (…) dizendo: que teu pecado caia sobre nós. Mas este grito nada tinha de semelhante ao povo judeu. O clamor judeu derramou o sangue do Senhor. As pessoas de Milão, sabendo que Ambrósio era catecúmeno, prometiam-lhe com intenção sincera a remissão de todos os seus pecados pela graça do batismo”

Depois disso, Ambrósio permite que mulheres de má fama entrem em sua residência como forma de denegrir sua própria imagem perante seus eleitores, mas a multidão insistia: “Que teu pecado caia sobre nós”.

Depois de muito hesitar, finalmente Ambrósio se rende aos fiéis e se torna Bispo de Milão. Apesar de toda sua hesitação, Ambrósio foi um bispo exemplar, sua primeira atitude como bispo foi vender todo o ouro e dinheiro que possuía e dar aos pobres e à Igreja. Ela acreditava que a cobiça e a inveja eram a fonte de todos os males da humanidade e isso explica sua atitude.

A principal característica de seu episcopado, fruto de seu histórico como advogado e governador de Milão, foi seu envolvimento político. Graciano foi o imperador responsável pelo declínio do paganismo entre os anos de 354 e 382, após sua morte, os pagãos ensaiaram um retorno. Símaco, prefeito de Roma, dirigiu ao imperador uma solicitação pedindo que a estátua da Vitória fosse reintroduzida no Senado romano. Ambrósio imediatamente intervém escrevendo ao imperador: ‘Se tu reintroduzes esta estátua no Senado, eu não te aceito na Igreja’ e ‘Tu poderás ir à Igreja, mas não encontrarás aí nenhum sacerdote, ou se encontrares um, ele te resistirá!”. A estátua não foi reintroduzida. Era a derrota dos pagãos.

A imperatriz Justina, mãe do imperador Valentino, não se agradava da influência política de Ambrósio e, por ser ariana, tentou eliminar Ambrósio solicitando ao imperador que tirasse de Ambrósio a basílica de Milão para que um bispo ariano pudesse celebrar o culto em Milão. Ao cercarem a basílica, os soldados de Valentino se recusaram a tomar a basílica, pois temiam tanto a excomunhão de Ambrósio que não queriam executar as ordens do imperador. Pela primeira vez na história da Igreja cristã vemos um bispo com mais influência do que o imperador. Pela primeira vez na história um bispo ousou afirmar: “O que pertence a Deus não está sujeito ao poder imperial. Ao imperador, os palácios; ao bispo, as igrejas.” S. Ambrósio relata esse feito memorável a sua irmã Marcela:

“Quase todas as vossas cartas testemunham uma solicitude especial para com a Igreja… (Eis o que se passou aqui)… Os chefes do exército e os membros vieram me encontrar para que eu entregasse a basílica e a passasse, pessoalmente, com medo de um movimento popular. Eu respondi o que é próprio do sacerdócio: o templo de Deus não pode ser entregue pelo sacerdote de Deus… Tribunos se apresentaram para que a basílica fosse cedida. Eles diziam que o imperador está em seu direito, pois tudo emana do seu poder. Respondi: Se ele me pedisse o que é meu, terra ou dinheiro, eu não colocaria obstáculo – muito embora tudo o que é meu pertença aos pobres. Mas as coisas que são de Deus não estão sujeitas ao poder imperial. Se o imperador exige meu patrimônio, ei-lo… Ordenam-me: “Entrega a basílica!”- Eu respondo: “A mim, não é permitido entregá-la. A vós, senhores, não vos é permitido recebê-la.” Retrucam: ‘Tudo é permitido ao imperador, pois tudo lhe pertence’. Respondo: ‘Não creiais, senhores, ter a título de imperador qualquer direito sobre as coisas de Deus’. Está escrito: ‘A Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Ao imperador os palácios, ao bispo as igrejas”

Mas Justina não admitiu a derrota, no ano seguinte ela indicou um certo Mercurino para o lugar de Ambrósio, e que ela consagrou bispo com o nome de Auxêncio, em homenagem ao falecido bispo ariano. Em 23 de janeiro Valentiniano promulgou uma lei que concedida aos arianos o direito de reunião, e ordenou ao bispo que entregasse as igrejas aos arianos. Ambrósio nem sequer responde a tal ordem e, quando convocado para comparecer perante o tribunal, responde apresentando o motivo pelo qual não se apresentará: “Em matéria de fé, os bispos são juízes dos imperadores cristãos, e não os imperadores dos bispos… O imperador não está acima das igrejas, ele está na Igreja”. A corte resolve empregar a força, o que será inútil, os soldados investiram contra a basílica Porciana, onde Ambrósio estava com uma multidão de fiéis. Os fiéis entoaram hinos e se recusaram a ceder. Paulino e Santo Agostinho são testemunhas deste fato. Agostinho escreve: “Eis minha mãe que vai à Basílica para ocupá-la. Ela fará tudo o que Ambrósio lhe disser para fazer.” Definitivamente, era Ambrósio quem governava e não o imperador.

2. Agostinho de Hipona

Assim como Ambrósio, Agostinho não tinha muito interesse na religião cristã, filho de uma cristã fervorosa, Mônica, Agostinho dizia que a religião de sua mãe não era nada mais do que “fábulas de velhas”. Apesar de nascido na Igreja, ele viveu uma vida libertina e teve um filho com sua concubina, chamado Adeodato.

Agostinho era um homem intelectual e muito estudioso. Ele é atraído à vida filosófica pela leitura de Hortensius, obra de Cícero que se perdeu no tempo. Fiel ao ideal filosófico, ele se torna um devorador de livros, porém, algo o deixava insatisfeito:

“Um único ponto fazia diminuir meu ardor: o nome de Cristo não estava no livro. Esse nome, segundo os olhares de vossa misericórdia, Senhor, este nome de meu Salvador, vosso Filho, meu terno coração de criança o tinha sugado com amor, sugando o leite de minha mãe; dele conservava o mais alto apreço. Tudo aquilo de que estivesse ausente este nome, ainda que fosse de uma obra literária douta, bem escrita e verídica, não me atraía em absoluto”.

Nas Confissões, ele escreve: “Criaste-nos para Ti, e o nosso coração vive inquieto até repousar em Ti.” Esse anseio de Agostinho, como veremos logo adiante, é manifesto durante todas as etapas de sua vida.

2.1 A Peregrinação de Agostinho à Fé Cristã

Primeiro, Agostinho buscava o ideal mundano – fama, ganhos, honras, cargos. Ele queria tomar do mundo tudo quanto fosse possível. Isso não o satisfez e o levou ao ideal religioso. Nesse momento, certas objeções afastavam Agostinho do cristianismo, são elas o problema do mal e o pouco valor literário da Bíblia. Assim, Agostinho abraça o maniqueísmo que oferecia uma certa resposta ao problema do mal e usava da Bíblia apenas aquilo que lhes apetecia. O maniqueísmo era uma seita moralista que propunha uma Igreja só de puros. Agostinho vai acabar por seAgostinho_de_Hipona_01 desiludir com o Maniqueísmo por dois motivos principais, primeiramente, Agostinho tinha algumas dúvidas que nenhum líder maniqueísta conseguia responder satisfatoriamente. Agostinho era exortado a esperar por Fausto, um líder maniqueísta que viria e responderia suas indagações. Ao se deparar com Fausto, Agostinho se desiludiu com o maniqueísmo ao ver que a argumentação de Fausto nada tinha de substancial, mas apenas muita retórica. Alinhado com isso, ele percebe que o ideal de pureza dos maniqueus era falso, ele disse: “Esses homens não vivem o ideal de pureza que pregam; mentirosos, não vivem o que ensinam e pretendem viver.’ Com isso, Agostinho percebe que não se pode exigir uma Igreja só de puros, o mal é algo intrínseco à natureza humana pelo fato de o ser humano já nascer herdeiro do pecado de Adão – isso vai levá-lo a desenvolver a doutrina do pecado original e será útil na sua batalha contra Pelágio que dizia que a salvação é obtida através da santificação pessoal.

A partir desse momento ele começa sua caminhada àquilo que fazia sua alma viver ansiando – o cristianismo. Agostinho abraça o neoplatonismo, essa doutrina lhe apresenta uma resposta satisfatória para o problema do mal, para o neoplatonismo o mal nada mais é do que a ausência de bem e não uma entidade que exista independente do bem. Nas suas Confissões, ele diz que o mal é como um parasita, pois não tem existência pŕopria, mas vive de deturpar o bem. Uma mentira, por exemplo, não existe por si só, mas existe como deturpação da verdade. E assim, Agostinho encontra a solução para um dos problemas que o afastavam do cristianismo, além disso, o neoplatonismo apresenta toda uma visão espiritual de Deus, descrito como o Uno, acima de todas as coisas, fonte da qual brota a realidade toda e para a qual tudo converge. Mas faltava a resposta ao problema do pouco valor literário da Bíblia e aí entra o Bispo Ambrósio de Milão. Agostinho assim descreve o seu primeiro encontro com Ambrósio:

Vim, pois, a Milão ter com o bispo Ambrósio, por sua virtude conhecido em todo o mundo, como alma de elite e vosso piedoso servidor. Sua grande eloquência servia então ao vosso povo ‘o alimento de vosso trigo’, ‘a alegria de vosso óleo’, ‘a sóbria embriaguez’ do vinho. Vós me levastes a ele sem eu o saber, para que por meio dele voltasse sábio a Vós. A acolhida deste homem de Deus foi para mim a de um pai e teve, por minha qualidade de estrangeiro, atenção que se pode esperar de um bispo.

Ambrósio, além de pregar utilizando o neoplatonismo, usava a exegese alegórica de Orígenes e revela a Agostinho a chave para compreensão do texto bíblico: ‘Toda Escritura é espiritual.” Orígenes afirmava que haviam 250px-Origendois sentidos no texto das Escrituras são eles (1) o sentido literal e (2) o sentido espiritual, este último só podia ser descoberto com a pureza de caráter, justamente por isso eram tão difíceis de serem compreendidos. Os textos que, para Agostinho, pareciam “ensinar um erro”, agora, através da exegese de Ambrósio, revelavam seu verdadeiro sentido espiritual e se tornavam inteligíveis.

Não podemos deixar de mencionar uma experiência espiritual que também marcou profundamente o início de sua caminhada cristã e dissipou definitivamente suas dúvidas, deixemos Agostinho falar por si mesmo:

“Indaguei as profundezas ocultas da minha alma, arranquei os seus piedosos segredos e, quando os tive todos juntos diante dos olhos do meu coração, eclodiu em mim uma grande tempestade que provocou um dilúvio de lágrimas… Com efeito senti que era ainda escravo dos meus pecados e na minha miséria não cessei de repetir entre gemidos: “Até quando continuarei a dizer: amanhã, amanhã? Porque não agora? Por que não acabar neste momento com os meus horríveis pecados?”.

Estava eu a fazer-me estas perguntas e chorava com a mais viva dor no meu coração, quando senti de repente uma voz infantil numa casa próxima. Não seria capaz de dizer se era voz de menino ou de menina: sei, no entanto, que continuava a repetir o refrão: “Toma e lê! Toma e lê!”. Olhei em volta e pus-me pensar se haveria algum jogo em que as crianças repetissem estas palavras, mas não me lembrava de alguma vez tê-las ouvido antes. Enxuguei as lágrimas e levantei-me a dizer que só podia ser Deus que me ordenava que abrisse o livro das Escrituras e ler a primeira passagem que surgisse aos meus olhos. De fato, eu já tinha ouvido dizer que Antão tinha entrado numa igreja enquanto se lia o Evangelho e tinha pensado que se dirigiam a ele pessoalmente as palavras que ouviu ler: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres; depois, vem e segue-me!”. Esta mensagem divina tinha-o convertido imediatamente.

Apressei-me então a voltar para onde Alípio estava sentado, porque, quando me levantara para me ir embora, tinha deixado ali o livro das cartas de Paulo. Peguei nele, abri-o e li as primeiras palavras que me surgiram diante dos olhos: “Não nas orgias nem na embriaguez, na imoralidade ou na lascívia, não nas contendas ou ciúmes, pegai antes nas armas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não queirais contentar a vossa natureza pecadora nem satisfazer os seus desejos”.

Não quis ler mais, nem tive, aliás, necessidade. Num instante, tendo chegado ao fim da frase, foi como se a luz da fé tivesse inundado o coração, fazendo desaparecer todas as trevas da dúvida”.

AGOSTINHO, Confissões VIII, 12

A experiência de ouvir a voz infantil dizendo “Toma e lê!” é semelhante à experiência de Ambrósio que através de outra voz infantil – “Ambrósio, bispo!” – iniciou sua vocação episcopal. Dois gigantes da Igreja marcados por uma inocente voz infantil. Aí entende-se o porquê que a voz das crianças era considerada quase como a voz do próprio Deus.

Essa experiência mística aliada com o neoplatonismo e a exegese alegórica de Orígenes era a união da fé com a razão que faltava para Agostinho se tornar o Santo Agostinho. “A fé não pode contradizer a razão” afirmou Gregório de Nissa. Na patrística a fé não era vista como inimiga da razão, mas eram aliadas, a fé verdadeira precisava ser inteligível e nem por isso se tornava árida e distante da práxis cristã, assim, vemos que os maiores téologos e defensores da ortodoxia na patrística eram também pastores zelosos das almas de seus rebanhos que não hesitavam perante o poder dos imperadores ou dos prazeres mundanos.

2.2 O Pensamento de Agostinho

Agostinho é, junto com Tomás de Aquino, o maior pensador da história da Igreja e sua obra é de tal dimensão que torna inviável considerá-la aqui, porém, alguns pontos podem ser levantados.

2.2.1 Agostinho diante das Escrituras Sagradas:

Agostinho já estava ciente das divergências textuais dos diversos textos da Bíblia. Ele afirma que devíamos preferir uma versão latina chamada de Itala – da qual não restou nenhum vestígio. Ele também sente algumas dificuldades em compreender a relação entre os dois Testamentos. Na sua luta contra os maniqueus, que negam a validade do Antigo Testamento, ele é pressionado a resolver o problema, daí ele vai dizer que o Antigo Testamento está ocultado no Novo e no Novo está a manifestação do Antigo, portanto, a censura dos maniqueus em relação ao Antigo Testamento e aceitação do Novo seria incoerente, já que a negação de um implica a negação do outro. Agostinho vai explicar a unidade entre os dois testamentos pelo fato de ambos terem Cristo como autor, não sendo Cristo apenas a chave hermenêutica de interpretação das Escrituras – como diziam Inácio de Antioquia e Clemente de Alexandria – mas também como o próprio autor das Escrituras. As diferenças entre os Testamentos são explicadas através do conceito da pedagogia de Deus, Deus para se fazer entendido pelo homem se revela progressivamente, por exemplo, tendo que lidar com homens carnais que querem se vingar, Deus lhes dá a lei do talião, para levá-los um dia, num caminhar progressivo, ao perdão das ofensas até mesmo de seus próprios inimigos.

Na teologia de Agostinho encontramos três conceitos fundamentais: a graça, o sacramento e a verdade. A graça é o primeiro deles, é para Agostinho, um estado onde o homem apesar de não ver o que ele crê, ele deseja o que se ama. Isso significa que o impensável que está em meu espírito, o impossível que está no meu coração, são pensáveis e possíveis em Deus. Deus pode pensá-los por nós, em nós. Deus os torna possíveis. Nós passamos, então, a amar e desejar o que Deus manda, dessa forma somos levados a realizar a lei que Deus nos deu. O conceito de sacramento, que seria um instrumento necessário para se chegar a Deus, são instrumentos que servem para nos levar a compreender certas verdades de Deus. E o conceito da Verdade, a graça derramada no coração do homem inscreve em seu coração a verdade de Deus.

2.2.2 Agostinho diante da pregação da Palavra

Para se pregar a Palavra é necessário uma certa cultura, no mínimo precisamos conhecer uma língua e os detalhes da cultura na qual estamos inseridos. Isso leva Agostinho a se perguntar se haveria uma cultura necessária para quem quer pregar a Palavra. Na obra A Doutrina Cristã, muito influente na Idade Média, S. Agostinho explica com quais princípios deveríamos ler a Bíblia e trata da questão da cultura clássica. Agostinho afirma que a cultura clássica é dispensável, dizendo que basta ao pregador o conhecimento da Bíblia e dos mestres cristãos. Mas ele acrescenta que a retórica pode ser útil, pois é uma técnica para utilização da palavra, portanto, apesar de a cultura clássica não ser indispensável, ela pode nos ser útil se aliada com a cultura cristã encontrada na Bíblia e nos autores cristãos.

Agostinho reconhecia alguns riscos e limitações da Palavra enquanto proclamadas por alguém. Ele reconhecia que a linguagem humana não era capaz de expressar o Verbo divino em toda sua plenitude, além disso ele temia não corresponder à verdade e atrair para si mesmo e não para Deus. O que fez com que ele continuasse a pregar foi sua humildade em reconhecer que deveria se colocar a serviço dos irmãos, e mesmo que sua linguagem fosse insuficiente para expressar aquilo que ele realmente gostaria de dizer, era necessário fazê-lo, pois o povo precisa de sacerdotes.

2.2.3 Agostinho diante de sua obra

Um fato interessante da vida de Agostinho é que no final de sua vida, ele se colocou perante sua obra e a comentou à luz do Agostinho maduro. Essa obra de reflexão se chamou Retractationes. É claro que ele não conseguiu examinar toda sua obra, mas podemos analisar a evolução de seu pensamento através daquilo que ele comentou sobre seus próprios escritos.

Um breve exemplo da mudança de pensamento de Agostinho é seu posicionamento sobre milagres. Primeiramente, ele comenta nas Confissões a descoberta dos corpos dos mártires Gervásio e Protásio em Milão e os supostos milagres que se produziram a partir disso. Agostinho se mostra um tanto cético e desinteressado pelo caso. Mais tarde, refletindo sobre os milagres apostólicos, ele dirá que o cristianismo é como uma árvore que cresceu, necessitando no início, nos seus primeiros anos, de ser regada. Os milagres teriam, nessa fase, justamente o objetivo de regar a fé dos crentes, ele afirma:

“Estando a Igreja católica difundida e estabelecida por toda a terra, aqueles milagres não foram mais consentidos ao nosso tempo. Isso para que o nosso espírito não exija sempre coisas visíveis, e que o gênero humano não arrefeça pelo costume de se apoiar nestes bens, com cuja novidade se tinha inflamado”

Alguns anos após essa declaração, em 415, ocorre um fato que fará Agostinho rever sua posição. São descobertas relíquias de Santo Estevão – Agostinho não dá importância a isso – e um certo dia acontece um milagre diante da capela de Santo Estevão: uma anciã é curada. Agostinho, então, passa a reconhecer a atualidade dos milagres e afirma: quão admirável é Deus nos seus santos! Nas Retractationes, ele retira a opinião de que os milagres eram unicamente pŕoprios da época apostólica e afirma: ‘Não se podem conhecer, nem enumerar todos os milagres que se produzem em nossa época”.

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